domingo, 27 de março de 2011

DIA MUNDIAL DO TEATRO

Procurou-se a mensagem internacional do Dia Mundial do Teatro no site da DGARTES, e nada se encontrou. Mas aqui pode lê-la em francês, no site da ITI que festejou o dia a 23 (quase se podia dizer que o Dia mundial do Teatro  é quando se quiser). Por outro lado, a SPA também tem uma mensagem: neste endereço.  
Adenda: Entretanto conseguiu-se a tradução da Mensagem que pode ser lida aqui

sábado, 26 de março de 2011

MINISTÉRIO OU SECRETARIA DE ESTADO ?

Como já se  escreveu noutros «posts»,  uma das ideias é centralizarmos neste Blogue pontos de vista que vão aparecendo dispersos sobre a Cultura e as Artes do Espectáculo, nomeadamente na comunicação social, e está neste caso o artigo de Castro Guedes publicado hoje no Jornal Público em torno de Ministério da Cultura ou Secretaria de Estado da Cultura. O início:

O secretário de Estado despachava directamente com o primeiro-ministro, o que facilitava canais de comunicação

 Antes uma Secretaria de Estado que um Ministério na Cultura


 Aquando da criação de um Ministério da Cultura, os artistas e demais agentes culturais, quase unanimemente, aplaudiram o facto e exprimiram imensas esperanças. Eu estava do lado minoritário das dúvidas e baixa expectativa, mas aguardei. E se trago o assunto à colação não é numa óptica de circunstância passageira e muito menos de uma maquiavélica forma de atacar a titular, para quem, noutros espaços, reservo o direito à crítica.
 Só que com reforço orçamental em simultâneo, Aliás, atingiu-se a maior dotação orçamental do sector, apesar de o mítico 1% do Orçamento do Estado (tantas vezes anunciado como intenção e mesmo compromisso eleitoral) nunca ter passado dos 0,7%. Com essa verba, ao ministro foi possível desenhar e cumprir objectivos com enquadramento programático, gostem-se ou não, é um facto - e estou à vontade porque da maior parte não gostei das opções e tornei-o público. Mas, a título de exemplo, registe-se a recuperação de teatros e cineteatros, iniciada pelo antecessor, mas tornando-se possível desenhar na base da constituição de uma rede de recintos construídos e/ou reabilitados numa escala nacional muito significativa.
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sexta-feira, 25 de março de 2011

FUNDO INTERNACIONAL PARA A DIVERSIDADE CULTURAL

Quem sabe alguém que leia este Blogue não saiba deste Fundo, e  talvez possa estar  interessado, candidatando-se, eventualmente,  com alguém do Brasil ou de Moçambique, como se adianta  no site do GPEARI:
Brasil e Moçambique! Convite à apresentação de pedidos de financiamento pelo Fundo Internacional para a Diversidade Cultural
A UNESCO lançou o segundo convite à apresentação de pedidos de financiamento pelo Fundo Internacional para a Diversidade Cultural (FIDC)
O Fundo Internacional para a Diversidade Cultural tem por objectivo promover o desenvolvimento sólido e a redução da pobreza nos países em vias de desenvolvimento e que ratificaram a Convenção de 2005, da Diversidade Cultural
Na prática, Portugal não está habilitado a concorrer, mas o Brasil e Moçambique poderão apresentar pedidos de financiamento a este Fundo
O Fundo Internacional para a Diversidade Cultural apoia projectos que visem favorecer a emergência de um sector cultural dinâmico, essencialmente através de actividades, que facilitam a introdução de novas políticas e indústrias culturais, ou que reforcem as já existentes
O prazo para apresentação de candidaturas termina a 30 de Junho e poderá encontrar toas as informações necessárias na página do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural /

sexta-feira, 18 de março de 2011

ASSESSORES

Foi notícia, ontem, nos telejornais da SIC: o vídeo. Não precisa de comentários. Apenas um: o mais grave será um Director pensar que pode levar para a Administração Pública quem muito bem quiser.Bem pode o Governo dizer que  criou regras mais justas para o recrutamento de dirigentes e demais trabalhadores. E até proclamar que as Entradas estão congeladas. Está, aí,  à vista, o que acontece! E parece pertinente saber-se sobre a verdadeira ocupação do Assessor (primeiro individualmente, depois como sociedade).

segunda-feira, 14 de março de 2011

CASA ROUBADA ...

A partir do Diário de Notícias de 12 último ficou a saber-se isto:
Ministério quer devoluções
GABRIELA CANAVILHAS MINISTRA DA CULTURA
O Ministério da Cultura está a ponderar entregar ao Ministério Público o caso do Grupo de Trabalho do Património Imaterial, que envolve três ex-directores regionais da cultura, no sentido de obter a devolução das remunerações dos mesmos, isto porque o extinto Grupo teve um custo de 209 mil euros e reuniu-se apenas uma vez em 14 meses.  
Veja o post anterior, e poderá ficar a saber melhor do que se trata. E apetece recorrer ao provérbio «casa roubada, trancas à porta»: é de supor que devia haver um sistema de monitorização que não deixasse chegar a estas situações. Mas pelos vistos, como já aconteceu no passado para outros casos - talvez se possa chamar para aqui, por exemplo, o que aconteceu com a Orquestra Metropolitana de Lisboa que levou, aliás,  à saida do seu Director -, estas coisas vão-se prolongando durante meses, anos, sem que ninguém dê por isso. Género auto-gestão. E os «Planos de Prevenção de Riscos de Gestão, incluindo os riscos de corrupção e infracções conexas», obrigatórios para todos os organismos públicos, não deveriam também impedir que se chegasse a este estado de coisas? Onde é que se falhou, quem mais falhou? Ou seja, não será apenas o Grupo de Trabalho que estará em causa.

segunda-feira, 7 de março de 2011

GRUPO DE TRABALHO

Grupo de Trabalho
Quando ouço falar de grupo de trabalho logo penso que o trabalho que o grupo teria – ou terá, que eles estão para durar e crescer com o emagrecimento do Estado, pois não há nada para oferecer às clientelas que não seja temporário agora e fora dessa “eternidade” que era entrar para o quadro - de desenvolver está, logo no seu arranque de existência, suspenso pelas mil e uma contingências que fazem com que os grupos de trabalho sejam grupos de destrabalho. Só para se encontrar o tempo comum de trabalho neste tipo de grupos há desde logo todo o tipo de impossibilidades, pois grupo de trabalho quer na realidade dizer menos que part time, biscate, desencontro regulado, qualquer coisa no meio de levar as crianças à escola ou de as trazer da escola e levar ao inglês, ou de ir de fim-de-semana prolongado para a casa do Alvito ou a Madrid ao Prado, ou mesmo do casamento da prima e por aí adiante.
Em primeiro lugar a questão da necessidade: um grupo de trabalho deve ser uma organização extraordinária para tratar de uma questão extraordinária e não uma associação de promovidos de circunstância a tratar de questões ordinárias. Ninguém de boa cepa e saúde mental pode aceitar que um Estado Democrático não cubra organizada e organicamente, através de serviços específicos, questões como as que se relacionam com a nossa identidade, chame-se a isso património imaterial ou património material. É inaceitável que não existam serviços permanentes do Estado a tratar da nossa memória global como da nossa vida futura, numa perspectiva prospectiva. Saberão o que isso é? É para o país o mesmo que a história nacional é para os portugueses que crescem na escola pública – pública sim, porque a privada, pode ser inglesa, chinesa, o que os privados entenderem legitimamente, podendo nelas decidir dar apenas a história dos mandarinatos, golfe e como chupar sumos frescos pela palhinha.
Em segundo lugar a questão do recrutamento: muitas vezes não se escolhem pessoas para integrar um grupo de trabalho que sejam competentes, idóneas, independentes, especializadas no trabalho em questão e finalmente com provas de produtividade dadas, isto é, com obra e não com currículo de funções apenas, cargos, proximidades electivas, primos no partido. Mostra-me a tua pintura, não me mostres o cartão do partido, já dizia o outro.
(...)
Da minha experiência de ter integrado a 11ª Comissão para a reforma do Ensino Artístico – trabalho não remunerado – a convite do Professor Rui Nery declaro o seguinte: as conclusões para lá andam, no Ministério da Educação e não serviram para nada. Depois desse trabalho, feito por pessoas generosas e sem pagamento, repito, surgiram outras comissões, a 12ª por certo e não sei se mais, perdi-lhes o rasto pois a certa altura são clandestinas, trabalham para a sua própria existência improdutiva em circularidade becketiana.

E uma notícia do jornal Publico de ontem sobre Grupo e Património Cultural Imaterial.

domingo, 6 de março de 2011

MAIS UMA AUDIÇÃO PARLAMENTAR À MINISTRA DA CULTURA




Acabámos de ver o video da ida ao Parlamento da Ministra da Cultura,  há três dias (2 de Março), à Comissão de Ética, Sociedade e Cultura. Dura 3 horas que pessoal da PARTE dividiu em dois momentos. Se quiser fazer o mesmo,  o endereço. Respire fundo.
No fim  pode questionar-se sobre o papel das Comissões. É certo que  uma das obrigações do Parlamento é a fiscalização, e logo de início  a Ministra disse-se satisfeita por mais aquela oportunidade para «Prestar Contas». Mas tudo  o que  ali foi questionado devia ser de resposta publica, documentada, corrente. Não se pode crer que a fiscalização seja aquilo. Não se estiveram a escrutinar políticas mas actos isolados. E uma vez mais aconteceu, números para a frente e números para trás, e, como grande sobra, a dúvida: quem estará a falar verdade?
Depois, nota-se,  a senhora Ministra sorri muito. Aliás, fez alusão a isso mesmo ao comentar que um dos deputados dizia que «sorria sem motivo» para logo acrescentar que na circunstância tinha razões para sorrir. Tinha boas notícias. Como se a política fosse isso, notícias que se trazem na manga.
Mas indo ao que realmente nos moveu, e se bem se reparou, os temas com que a Senhora Ministra deixou de sorrir estiveram muito ligados às perguntas que lhe fizeram sobre as Artes do Espectáculo.  E há momentos em que, para quem está fora daquele ambiente, a Senhora Ministra parece chegar  a ser básica, deselegante, por exemplo, com alusões, a despropósito, ao regime soviético. O que pareceu recurso de última hora de quem já não tem argumentos. E se o Senhor Secretário de Estado foi mais cortês, não resistiu a provocar os deputados do PCP e do BE como que lhe devolvendo uma discussão sobre o tal regime soviético quando a «graça»  tinha sido levantada precisamente pela Ministra. Ministra que às 2h 54m 40s parece mesmo chegar a perder o controlo, gesticulando e gritando, deturpando  o que tinha sido defendido por um dos deputados a propósito da diminuição dos apoios ao Alentejo, e que a senhora Ministra quer atenuar com um Festival, com argumentos que parecem ir naquela linha de se considerar que os apoios dos concursos são para subsidiodependentes. O Festival é que é bom. Sobre isto, não foi dito, mas adiantamos nós, os festivais são essenciais mas não parece que o sejam como fonte alternativa de financiamento, para tapar erros.
 Mas pelo que se viu e ouviu sobre as artes, a situação de facto parece ser para tudo menos para sorrisos. Ora, vejamos:
- Sobre o resultado dos concursos, em curso, da DGARTES (está-se em fase de audiências de interessados), pode ver-se a Senhora Ministra dizer que «não são decisões de Estado, são decisões de júris». A propósito, será de lembrar que qualquer que seja o júri a responsabiliadade é do Membro do Governo que foi, aliás, quem sancionou a decisão e, diga-se, sem fundamentação. E talvez fosse melhor reconhecer que algo não vai bem naquilo, e  jogando-se  apenas com as «regras de jogo« existentes. Doutra forma,  então para que aquela coisa de no Aviso de Abertura haver desdobramentos  pelas regiões? E não pode ser possível accionar um procedimento que viola todas as lógicas de bom senso e que não tem cobertura no Decreto-lei n.º 225/2006, não se percebendo, e é de sublinhar, como as possibilidades de alterações aparecem na Portaria n.º 1204-A/2006. E pelos vistos só os Apoios que são decididos pelos serviços - e eles existem -  é que serão «decisões de Estado». Ou seja, há apoios de «Estado» e apoios que são «de júris». Mas é claro que seja qual fôr o problema que despoleta estas discussões a conclusão só pode ser uma: o sistema de apoio às artes através da DGARTES está esgotado.
- E ainda sobre o que foi discutido na audiência e que interessa às Artes, temos a «Rede de Teatros Municipais». As confusões de partida parecem ser muitas: tão depressa se fala na «nossa rede» como se diz que não existe, como se confunde com «programação em rede». E pela «fórmula» que parece estar inerente ao que se vai ouvindo, aquilo foi beber ao que se passou na era POC, mas que se saiba ainda não há balanço técnico e político, público, do que se praticou, e são muitos os que demonstram que muitos foram os erros que se praticaram. A melhor prova: tudo foi feito no pressuposto de que se estava a criar rede quando no fim como se constata não era verdade. Em particular, perverteu-se o que vinha detrás, nomeadamente a «Rede Carrilho» - veja-se este post anterior.  E é por isso que estamos onde nos encontramos. E agora vai dar o QREN (que programas?), vai dar a Fundação EDP, vai dar o MC ... .Pocesso semelhante ao passado. E diz a Senhora Ministra: para Recursos Humanos, para Programação, para Equipamentos ... Como no passado. E um deputado perguntou: e vai haver encargos financeiros para os Municípios? É que são conhecidas as dificuldades ... A resposta, pronta, andou em torno de parcerias para aqui, parcerias para acolá.  Pois bem, parece-nos que  estas coisas têm de assentar em estudos, é o mínimo que se pode exigir. Não podem fundar-se  em notícias dadas aqui e acolá com mais ou menos pompa e circunstância. Não poderiam os Senhores Deputados fiscalizar isto?
- E na audiência também se falou na OPART. Mas sobre isto quem não sabia ficou sem saber. Retem-se o que a Senhora MInistra adiantou quase de passagem: em termos de fusão ainda foram mais longe do que no início ... E, já gora, quanto à Direcção, SALAVISA, já saiu, ou não?  Ninguém prguntou.
- E também houve informação sobre o rateio do milhão de reforço para os apoios quadrienais, (que não repõe o corte previsto), mas ninguém perguntou se  estão a tentar as descativações, e muito menos se os cortes chegaram a produzir efeito no ano passado ... E muito menos se perguntou, especificamente, se os Apoios Tripartidos também não deviam beneficiar dos reforços. E em que é que esta modalidade difere do que se quer agora fazer a coberto da tal Rede Municipal.
Há um momento curioso, quando a Senhora Ministra diz que o que separa os Paises desenvolvidos dos subdesenvolvidos tambem se mede pela forma como a sociedade civil participa no financiamento às artes. E cnclui-se que nós estaremos nos segundos. Apetece fazer graça e dizer que agora é oficial. Mas depois de se ver este video, de 3 horas, haverá outros indicadores que não nos deixarão também ir para o pelotão dos desenvolvidos, adoptando-se a tipologia da Senhora Ministra. 
E chega-se ao fim, e aquilo parece ser um número: pronto, mais uma audição, desta já nos livramos, venha a próxima ... E quase que se ia jurar que alguém perguntou: como é que nos saimos? E alguém disse: esteve muito bem, a Senhora Ministra.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

UNIÃO EUROPEIA E CULTURA

Não serão muitos os que terão presente que a Hungria está a exercer a Presidência da UE e que hoje se inicia uma Conferência sobre o Contributo da Cultura para a implementação da Estratégia Europa 2020. E sobre a Conferência a partir do site do Gpeari (Organismo do Ministério da Cultura):
«A Hungria apresenta uma aposta para a sua Presidência, na área da cultura: no contexto da Estratégia Europa 2020, a Presidência lança uma Conferência que visa identificar os domínios e os meios através dos quais a cultura pode contribuir para um crescimento inteligente, durável e inclusivo da economia europeia.
Numa altura em que as restrições financeiras, a coordenação obrigatória das políticas económicas dos vários Estados Membros, o alargamento da União à Croácia, as questões de relacionamento com os países da chamada Parceria Oriental, são temas de primeira página na União, a Presidência magiar traz para o centro do debate, ideias sobre cultura: como é que as ideias se podem tornar um sucesso comercial, permitindo às pequenas e médias empresas que inovem e cresçam, que utilizem novas tecnologias? como pode a cultura contribuir para a perfeição do desenvolvimento humano? e para a melhoria do capital social/civil que é exigido para o crescimento inteligente, inclusivo e sustentável na Europa? como utilizar a cultura no combate à pobreza e à exclusão? e a estética e as artes no desenvolvimento cultural sustentável?
E os investimentos na cultura, como optimizar fundos?
Vamos assistir a um debate sobre o facto dos sectores culturais e criativos representarem uma importante fonte de inovação tecnológica e não tecnológica, dada a natureza multidisciplinar da inovação e das ideias que lhe subjazem.
A Conferência, lufada de ar fresco no grande documento de orientação económica da Estratégia 2020, e que conta com um grupo de oradores de grande qualidade, entre os quais o Professor Freire de Sousa, representante português e co-presidente do Grupo de Trabalho das PME da Comissão Europeia, propõe o debate à volta dos seguintes temas: Cultura e Crescimento Inclusivo, Cultura e Crescimento Inteligente, Cultura e Crescimento Sustentável e Cultura e Mensurabilidade.
Os resultados serão debatidos por todos os Ministros da Cultura no Conselho Informal de Ministros de Março de 2011.
A não perder os resultados!»
Não pode deixar-se de  reparar no estilo deste texto, da «lufada de ar fresco», ao «sucesso comercial», e é claro que no mínimo vamos estar atentos ao que o Professor Freire de Sousa vai dizer, e procurar o seu pensamento sobre a Cultura, e prometemos ao Gpeari que não vamos «perder os resultados». E assim vai o mundo, perdão, a UE. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

«HÁ MUITO AGUARDADA»

A nota acima é da revista ATUAL do sábado passado daquela secção de «SOBE & DESCE» e  estava no «Sobe» com uma fotografia ao lado da Ministra da Cultura. E tanbém isto é motivo para pergunta: aguardada por quem? E quais são as suas características que permitem dizer que é algo positivo? Que garantias se tem de que não vai ser semelhante ao que se deu no passado? E o que é feito da REDE NACIONAL? Só com base nos arquivos da PARTE,  relacionados com esta matéria,  outra pergunta: tendo apenas em conta «o momento CARRILHO», o que é que o agora anunciado tem a ver com o que este excerto diz?

Precisando, com uma transcrição do prospecto de onde se tirou a imagem anterior: «(...) É agora altura de uma nova solução que se traduz no objectivo de dotar o país destes equipamentos, começando, em primeiro lugar, pelo compromisso de construir uma rede nacional de teatros e de cineteatros que abranja todas as capitais de distrito e, em segundo lugar, pelo empenho em fomentar uma rede municipal de espaços culturais que responda, com visão de futuro, à diversidade das situações  e de ambições que o país exibe».
E para não se dizer que só se fazem perguntas, uma sugestão: elabore-se um LIVRO BRANCO sobre este assunto antes de se começar a actuar, doutra forma a probabilidade de apenas se estar a «gastar» sem «investir» é enorme. Voltaremos a tudo isto, em breve. Mas, desde já, não esquecer que ao Ministério da Cultura compete o «nacional» e que o «local» é das autarquias. E naturalmente que se deve trabalhar de forma articulada, e até em parceria, como agora é comum pedir-se. O diabo é quando as parcerias levam a vazios de responsabilidade, ou seja, quando todos dão para o mesmo peditório sem saber-se muito bem o que exigir e a quem.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

KEUNER, O PENSADOR


Keuner, o pensador

Assim se auto-nomeia este alter-ego de Brecht nas suas próprias histórias, ele é um contador de histórias. Mas mais que pensador, ou pensador de uma dada forma, Keuner é um perguntador que quando faz afirmações coloca outras tantas dúvidas. Ele abre deste modo brechas no cimento dos clichés assertivos do Grande Costume, como Brecht caracterizou uma vez a força inamovível das verdades inquestionáveis do sistema que o capitalismo gerou. É um pensamento do simples, do que nos sucede e do que sendo comum não é normalmente objecto de indagação e é filosófico, criando caminhos e processos de pensar pensando, na medida em que desencadeia alternativas ao que a realidade impõe como pragmatismo de um modo que parte muitas vezes da ingenuidade, da pergunta curiosa, na explicitação daquilo que no óbvio está oculto pela força da sua própria evidência. O senhor Keuner fala muito da violência e personifica-a como monstruosa, omnipresente e quase indefinível pelo grau da sua infiltração abrangente na realidade, como uma estranha segunda natureza, pois está em todo o lado e assim sendo é difícil combatê-la, sendo o único modo de o fazer disseminando a paz, semeando-a por todo o lado como antídoto.
Aconteceu-lhe uma vez ter tido mesmo a necessidade de dizer aos seus alunos que tinha de viver mais tempo que a violência para acabar com ela, quando o acusaram de falta de coluna vertebral, pois que talvez por medo, em dada circunstância, tivera de lhe apresentar cumprimentos elogiando-a para lhe escapar. Sabe-se que Brecht escreveu a dada altura, fugindo do nazismo, que mudara mais vezes de país que de sapatos e é conhecida a sua atracção pelos domicílios fixos, tantas vezes tivera de mudar de casa.
O senhor Keuner, o perguntador, não pratica tanto a dúvida metódica, pratica mais a dúvida espontânea, aquela que a curiosidade move na cabeça de todos – o argumento não o move tanto quanto a dúvida. Ele é uma espécie de delegado não eleito daquilo que são as dúvidas de todos nós, esse primeiro passo da pergunta, segunda etapa de um processo que porventura ajuda a compreender a realidade quando esta impõe o modo como a devem ver – não se deixando ver, porque a realidade é uma construção humana e sistémica -, pelo poder dos seus poderes de facto, pelo poder das suas formas de estruturação, das que se apresentam com a face da eternidade, afirmando que tudo volta sempre ao mesmo e nada muda. E por isso, o senhor Keuner é um cultor da dialéctica simples da pergunta que fazemos na infância e que leva à visão de que o rei vai nu. Já Cervantes fustigara o preconceito no seu maravilhoso entremez O retábulo das maravilhas pondo um conjunto de cidadãos a ver pelo filtro sujo do preconceito o que, na realidade, não era o que as personagens do entremez viam e estas viam então ouro aonde apareciam ratos e maravilhas do mesmo tipo porque o preconceito mandava. Se o rei faz de estar vestido que dirão os súbditos? Que está vestido, claro. Se a dívida pública é uma inevitabilidade que dirão os estipendiados ao seu serviço que o contrarie? Pois Keuner, o pensador, pela imposição de uma realidade que nunca permite grande folga ao pensar mais descomprometido, nem a que se fale de maçãs quando a mortandade é maior que a mortandade supostamente regulada, não pode deixar de falar das questões económicas. Ele próprio tem de sobreviver e para além de já ter ido para a bicha das mentiras vender uma histórias para comprar leite do dia, cantou umas vezes no cabaré sobre o modo como se constitui o capital inicial das grandes fortunas, tendo as pessoas ficado escandalizadas por saber que todas as fortunas nascem de esbulhos e que no princípio não é o verbo mas o saque. E fez mesmo uma conferência económica sobre o modo como associar no mesmo monopólio propósitos concorrentes, uns de sabor puritano e terapêutico, outros de sabor proxeneta e virótico (de vírus pós erótico) e escreveu uma peça a mostrar também como é que um determinando gang mafioso tomou o poder e de que modo também o poder ditatorial se ergue sobre o assassinato e o controle dos negócios do Estado como um controle semelhante ao dos negócios obscuros da economia oculta.
Mas mais que isso, o senhor Keuner, o pensador, sendo crítico também dos costumes massivos, chegou mesmo a procurar soluções de como evitar a carnificina entre os de baixo estimulando o pensamento colectivo, isto é, o hábito de pensar criticamente em conjunto como uma necessidade imperiosa dos novos tempos, tão complexos. Referia-se ele a um século vinte prometedor, apesar de tudo, mas longe desta sociedade hiper-massiva de controle que nos tolhe a mente a cada instante de vício e dependência do que sejam as práticas comunicativas e os seus instrumentos, mais as trelas que os compõem e ligam a centrais de indução à “comunicação” constante. Comunicar passou a ser uma espécie de corrente eléctrica que nos tem ligados por trelas várias a um trânsito em que não cessa a hora de ponta e os seus bloqueios, estando nós permanentemente nela. Quando dela saímos logo nela reentramos porque nos segue por toda a parte sob várias formas, sendo que uma delas é certamente a música constante que nos cerca e ensurdece. Tudo converge: as imagens que cegam, a música que ensurdece, o tacto que insensibiliza, o exercício que esgota, o estudo que é descartável, a verdade que é hierarquizada, os prazeres que se tomam rápido como comprimidos e a cabeça que anda sempre atrás do telecomando que a viciou. No meio disto, claro, cada vez mais fragmentados e divididos pela multiplicidade de tarefas que fazem de nós um novo sapiens, uma espécie de operários inconscientes da grande fábrica de pequenas tarefas em que se tornou o quotidiano – o IRS, a conta do banco na internet, o email,
as mensagens, a hora de ponta, o telejornal, a bola, a bicha da praia, o ginásio, o mesmo fim de semana de toda a gente, etc. Uma fábrica de práticas soft para a tal classe média dominante e de muitas e estranhas violências nas suas franjas favelizadas, tudo sob o regime faroeste sem lei que impera no mundo globalizado.
Mas ao que aí vem, a queda mais que provável deste esquema pobre e podre, que dirá o senhor Keuner, de novo tão necessário pelo espírito indagador? Para velhas questões, novas perguntas claro.

Fernando Mora Ramos