quinta-feira, 14 de junho de 2012

«À BEIRA DA EXTINÇÃO»

As imagens  são de sete companhias de Teatro que nos últimos dias foram notícia na comunicação social, mas tudo à volta do mesmo, com titulos ou destaques do género: «Teatro luta para que não se feche o pano»; «Cornucópia, com 39 anos de existência, receia ser este o derradeiro ano de atividade». Isto no Jornal de Notícias de 12 de Junho. Por outro lado, as estruturas que participaram no 5.º Festival das Companhias de Descentralização - Cendrev, Escola da Noite, ACTA, Companhia de Teatro de Brga, Teatro das Beiras, Teatro Regional da Serra de Montemuro - alertaram no final «para o facto de estarem à beira da extinção», o que também mereceu espaço na comunicação social, e  o comunicado pode ser lido, por exemplo, no Blogue da Companhia de Braga  de onde se retirou: «(...)A somar a tudo isto, subsiste uma terrível incerteza sobre o futuro próximo. Os contratos quadrienais ou bienais ao abrigo dos quais estas companhias têm prestado o serviço público que as carateriza terminam no final de Dezembro e o Governo nada diz sobre o que quer ou pensa fazer em relação aos próximos anos. A indisponibilidade do Secretário de Estado e da Direcção-Geral das Artes para sequer se fazerem representar no debate organizado pelo Festival é apenas mais uma manifestação do desprezo das instituições públicas que tutelam o sector, não apenas pelo trabalho destas seis companhias mas pela globalidade da criação artística nacional. Depois de, entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012, terem andado pelo país a dizer que queriam discutir “um novo modelo de financiamento”, acantonaram-se e têm permanecido escondidos, à espera que ninguém os interpele e como quem aguarda instruções superiores. Com esta atitude, foram deixando que se instalasse a ideia – entre públicos, estruturas de criação e até chefias intermédias da Secretaria de Estado da Cultura – de que se calhar até iria deixar de haver financiamento público à criação artística em Portugal. Entretanto, o sector agoniza, fica desestruturado e impossibilitado de projectar o que quer que seja em relação aos próximos anos.
Este insustentável silêncio por parte do Governo foi interrompido no sábado pelo Secretário de Estado, em resposta a uma dramática declaração de Luis Miguel Cintra. Disse ele, atirando areia para os olhos das pessoas, que “os concursos” irão abrir em Setembro. Importa dizer que a abertura dos “concursos” através dos quais o Estado financia a criação artística em Portugal decorre da lei. E que, portanto, caso lhe passasse pela cabeça não os abrir este ano, teria no mínimo de apresentar uma justificação qualquer e de se dar ao trabalho de encontrar o mecanismo legal que lhe permitisse não o fazer. E, já agora, de justificar perante a Assembleia da República e o país a forma como pretende cumprir o desígnio constitucional de garantir o direito “à criação e fruição cultural” de todos os cidadãos. (...)
De facto, uma notícia de hoje, no jornal  Correio da Manhã, diz o seguinte: Apoios Podem voltar - O Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, disse no Parlamento que tudo fará para reabrir em Setembro os concursos pontuais e plurianuais de apoios às artes,  cancelados desde Março. Perante tudo isto, o que desde já se pode observar é que o problema está para lá do dinheiro. O que se constata é que as políticas públicas na esfera da cultura e das artes têm de ser tratadas  com competência e  transparência. A situação é séria, é grave, exigem-se medidas à altura. Talvez isto se possa ler na crónica de Jorge Calado na Revista Atual, no Semanário EXPRESSOde sábado passado (não temos link), mas de que transcrevemos:
A ESCOLHA DE SOFIA
Creio que foi Jean Vilar, o mítico diretor do Teatro Nacional Popular de Paris nos anos 50 e 60, quem disse que o teatro é um serviço público, como água, o gás ou a eletricidade. Eu, pelo menos, preciso de teatro para pensar. Perceber, por exemplo, a ironia que se esconde entre o fingido e o verdadeiro, entre a vida e a ficção (como se viu no recente espetáculo da Cornucópia). (...) O «Fingido e o Verdadeiro» da Cornucópia foi virtualmente construido com as memórias da companhia, os restos de outras produções e o barro dos atores. Resultado: um despojamento sublime e genial feito espetáculo. Fundado em 1973, o Teatro da Cornucópia é uma das poucas razões para viver em Lisboa. Em Portugal, há muito  que as instituições culturais estão ligadas à máquina ao nível mínimo de sobrevivência. Para o Estado, a cultura - a alma da nação - apenas merece umas pevides. Cortar nas pevides é a morte, por asfixia, dos teatros, dos museus ou bibliotecas. Com o apoio contratado com o Estado reduzido a 62%, a Cornucópia está em perigo. O secretário de Estado (isto é, o Governo) ainda não percebeu que se impõe uma escolha - a escolha de Sofia. A alternativa é assistir à morte coletiva. Ser política é saber escolher.   



Sem comentários:

Enviar um comentário