Iluminou mais de 50 anos de cinema português, de O Cerco, de António da Cunha Telles (1970), a Justa, de Teresa Villaverde (2025). Aos 87 anos, continua à espera do desejo de um cineasta.
Aquela cena que dava um filme, a do projeccionista numa aldeia sem electricidade, estará num filme se Acácio conseguir dinheiro do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para o concretizar — neste momento, sente-se "descalço" e "desamparado", o seu impressionante currículo como director de fotografia de pouco lhe vale nas contabilidades definidas pelos regulamentos de apoio à produção. Haverá relógios nesse filme, uma corrida contra o tempo, um filósofo coveiro, uma experiência de quase-morte, e uma digressão pelas escarpas do Douro.
Sobre essa viagem de descoberta do país, Margarida Gil [actriz em Veredas] contou que havia um ou dois carros apenas, um com o material, o outro com as pessoas, e que o Portugal que se descobria que era um país muito pobre. Ela lembrou-se do documentário que Buñuel rodou na região de Las Hurdes.
A pessoa que nasceu pobre não sabe o que é ser pobre porque viveu assim toda a vida e não imagina o que é a riqueza. Nem sabe que pode ter outros direitos. Tudo isso lhe está longínquo.
Eu nasci num meio idêntico [São João da Pesqueira], na Beira, onde o pão era cozido num forno comunitário e onde uma pessoa se encarregava disso, aquecia o forno e, em pagamento, dava-se-lhe um pão. A mesma coisa com o moinho: entregava-se quatro alqueires para moer, o moleiro moía e ficava com um alqueire. As coisas funcionavam como troca, até as terras se arrendavam. A mim a pobreza não me admirava. Quem viveu sempre na cidade, é natural que se admirasse.
Quem fazia a revolução desconhecia esse Portugal, que era sobretudo uma ideia de país?
Sim, acho que sim. Embora a descoberta que o João queria fazer não era o da vivência miserabilista ou com carências. Ia à procura da sabedoria que estava subjacente a essa aceitação. (...)»


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