segunda-feira, 11 de maio de 2026

«PARA O POVO _ Combater o Autoritarismo e salvar a Democracia» | de A. C. Grayling

 

 
Excertos:
 

No livro, descreve como países outrora liberais estão a deslizar para o autoritarismo. Qual é a maior ameaça atual à democracia?

É muito difícil apontar apenas uma. A ameaça principal é, evidentemente, a ascensão do sentimento autoritário — não só enquanto atitude, mas enquanto prática governativa. Vemo-lo em governos como o dos Estados Unidos [EUA]. Na Europa, apesar da derrota de Viktor Orbán na Hungria, há outros sinais claros: a Alternativa para a Alemanha, a extrema-direita em França, a presença de partidos de extrema-direita em Portugal e nos Países Baixos, ou a governação em Itália — ainda que Giorgia Meloni tenha sido, em certa medida, contida pela realidade do poder. Ao mesmo tempo, e estas duas coisas estão intimamente ligadas, assistimos a um crescimento da insatisfação com o próprio processo democrático. Há a perceção de que as instituições democráticas das economias avançadas não estão a servir as pessoas que enfrentam maiores dificuldades. Vivemos, por isso, um momento particularmente difícil, agravado pelo exemplo de Donald Trump nos EUA, que encorajou e legitimou forças da extrema-direita em vários países. (...)  

E porque é que a perda de confiança se tornou tão transversal?

As sociedades democráticas tornaram-se complacentes. As pessoas habituaram‑se às liberdades civis e ao ato de votar, mas desligaram‑se do esforço necessário para sustentar uma democracia: envolvimento, informação e participação ativa. Em simultâneo, a democracia é lenta e ruidosa — e isso tem custos. Nos últimos 50 anos, a influência do dinheiro reduziu a capacidade do Estado de financiar educação, habitação, saúde e proteção social. Parte significativa da população ficou para trás, sentindo-se ignorada e ressentida. Esse ressentimento é explorado pelos populistas, que oferecem respostas simples e culpados convenientes — imigração, elites, conspirações — para problemas complexos.

Apesar do diagnóstico sombrio, o livro aponta soluções. Quais são as reformas mais importantes para proteger a democracia?

Há duas frentes essenciais. A primeira é cívica: os cidadãos têm de estar informados, envolvidos e dispostos a resistir a ataques às liberdades civis. Cada dia de indiferença é um dia ganho pelos autoritários. A segunda é institucional. Os sistemas eleitorais devem ser genuinamente representativos. Muitos países operam ainda segundo modelos — como o de Westminster — que distorcem a representação e excluem vozes relevantes. E a governação não pode ser uma continuação permanente da campanha. Instituições bem desenhadas, com responsabilidades claras e fiscalização contínua, reduzem o risco de abuso. Como defendeu Frederick Douglass, a chave é criar instituições que impeçam mesmo as más pessoas de causar danos graves quando chegam ao poder».

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Sinopse
 Uma análise das razões pelas quais os alicerces da democracia estão a ser corroídos, e uma proposta de soluções para preservar a liberdade, as liberdades civis, os direitos humanos e o Estado de direito.
Nos últimos vinte anos, o mundo enfrentou uma sucessão de crises - na finança global, migrações, a pandemia de covid-19 e uma guerra de agressão em grande escala no continente europeu -, com consequências sociais, económicas e políticas graves, que resultaram em frustração, medo e ira.
Ao apoiar-se no descontentamento social, o extremismo propõe soluções simplistas e estereotipadas em resposta às ansiedades e incertezas que afetam as nossas sociedades. E a consequência é que, por todo o mundo, os alicerces da democracia estão a ser corroídos.
Neste livro, analisam-se as razões e o modo como isto está a acontecer e propõem-se soluções - ou, pelo menos, melhoramentos. Porque o que as democracias oferecem aos seus povos em matéria de liberdades civis, direitos humanos e Estado de direito é demasiado precioso para se perder. Ainda vamos a tempo de resistir. Saiba mais.
 

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