sexta-feira, 10 de agosto de 2012

AVALIAÇÃO DAS FUNDAÇÕES NA ESFERA DA CULTURA E DAS ARTES




«Há males que vêm por bem», e espero que este episódio da avaliação das fundações e da proposta de extinção  da que envolve a Casa das Histórias e Paula Rego seja pretexto para se ir mais fundo e se estudarem as «organizações sem fins lucrativos», e não só as que juridicamente são Fundações,  e, em particular, as que têm atividade na esfera da cultura e das artes. Não deixa de ser sintomático que tenham sido estas que vieram para «as bocas do mundo»: para além da de Paula Rego, a comunicação social referiu a Gulbenkian, Serralves, Culturgest ... E parece que «a bota não bate com a perdigota» ... E, talvez, porque as organizações da cultura e das artes são das mais escrutinadas, as pessoas, no mínimo, têm uma ideia e, só pelo que ouvem, concluem que aquilo não deve estar certo. E interrogam-se sobre os critérios seguidos.   Não apetece em Agosto ir estudar  o relatório, mas deu-se uma olhadela, e para os interessados aqui está onde o pode ver e aos seus anexos. A pouca leitura feita já deu, contudo, para reparar em alguns aspetos: não há informação permanente sobre o universo em análise, na essência o estudo foi realizado tendo como fonte a informação proveniente do inquérito lançado para o efeito; depois, curiosamente, as IPSS que são fundações não tiverem o  tratamento  geral, está escrito: «Das 401 fundações avaliadas, 174 são fundações de solidariedade social (IPSS), as quais foram analisadas numa ótica económico-financeira, faltando ainda complementar a avaliação com uma análise qualitativa à sua atuação, o que deverá ser efetuado, de seguida, com as respetivas tutelas setoriais (Ministério da Solidariedade e Segurança Social (MSSS) e Ministério da Educação e Ciência (MEC)). A pergunta: não deveria isto mesmo ser a prática para todas, ou seja, a avaliação ter a intervenção  da «respetiva tutela»? E o modelo de avaliação assenta em três critérios, a saber: 
  Pertinência / relevância
Visa aferir em que medida se justifica a existência das entidades ou a manutençao do regime fundacional, atendendo aos fins prosseguidos e às atividades desnvolvidas, bem como à existência de outras entidades públicas e/ou privadas que atuem no mesmo domínio.Ponderação: 20%
 Eficácia / eficiência
Pretende avaliar o custo-benefício das principais atividades desenvolvidas pelas fundações e, em que medida se justificam os apoios financeiros públicos afetos à prossecução das mesmas.
Ponderação: 30%
Sustentabilidade
Visa determinar em que medida está assegurada a viabilidade económica e qual o nível de dependência dos apoios financeiros públicos das fundações.
Ponderação: 50%
Bom, para seguirmos este assunto, quiçá avaliar-se da fragilidade do trabalho,  não deixará de ser útil seguir o caso « Paula Rego». Comecemos com a reportagem da TVI - Fundação Paula Rego com ordem para extinguir. Depois, na televisão ouvi António Capucho dizer que «Isto é tudo um disparate», e aqui pode ler-se:  «É grotesca" a simples ideia de extinguir a Fundação Paula Rego, diz António Capucho, ex-presidente da Câmara de Cascais, em declarações à Renascença. "Isto é tão disparatado, tão grotesco como os talibãs atirarem morteiros para cima dos budas. É uma hipótese impossível e grotesca", diz». E um post na blogsfera de Sérgio Lavos:O mesmo Governo que patrocinou o cortejo de vaidades da Joana Vasconcelos em Versalhes prepara-se para acabar com o financiamento do museu de Paula Rego, a Casa das Histórias, museu esse que contou com a doação inicial de mais de 500 obras da pintora portuguesa que os ingleses gostavam de ter como sua. São critérios. Se se confirmar o fim da fundação, espero que Paula Rego seja firme e peça os seus quadros de volta. Um país que trata assim os seus mais dilectos filhos merece nada menos do que isso. Merece nada.
Talvez se possa concluir que a procissão ainda vai no adro. E já agora, uma declaração de interesses, estudo estas coisas, e daí estar atenta. Numa dissertação de mestrado propus como critérios para se avaliar das organizações sem fins lucrativos os seguintes:   Jurídico; Capital de Constituição; Valência de Serviço Público; Democraticidade Interna; Resultados não Financeiros mensuráveis. E de certeza que havemos de voltar a isto, ou não se desse tudo por uma boa discussão, como diria o Mário Barradas.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

«A LIBERDADE DE CRIAÇÃO NÃO EQUIVALE AO DESERTO INSTITUCIONAL»


Da intervenção de RUI VIEIRA NERY no encontro havido a 19 de Junho de 2012 no Teatro São Luiz, em Lisboa: 
«Os artistas não são parasitas, são construtores de desenvolvimento nacional com um potencial imenso por explorar", declarou Rui Vieira Nery, confrontando o discurso de redução do artista a uma figura socialmente indesejável, dependente do Estado e não produtivo. E acrescentou que a "ideia de que a criação artística é algo que se materializa [a partir] da pura vontade do artista é uma mentira que se instalou e que importa desmistificar". O governo incorre numa definição do trabalho artístico como algo de não profissional, à margem das actividades economicamente 'verdadeiras' e 'úteis'. Como bem realçou o musicólogo, "não é suposto um artista ter de passar fome para fazer arte. Génios sempre houve", mas não é assim que se constrói e mantém uma rede de criação artística [estruturada e com pólos] de excelência. Por outro lado, "a liberdade de criação não equivale ao deserto institucional". A ideia de que o Estado não se pode intrometer nas escolhas estéticas e programáticas dos criadores, uma ideia certa e defendida por todos, não tem qualquer relação nem justifica a actual estratégia de desresponsabilização governativa perante a rede pública de equipamentos culturais e perante os apoios à criação.
(...)
Numa perspectiva económica, "esta estratégia entra em total contra-senso", considerou ainda Vieira Nery. Invocar a crise como pretexto para estrangular o investimento na Cultura é anular qualquer hipótese de sair da crise mas, sobretudo, o investimento na Cultura é, em termos macro-orçamentais, irrelevante. Qualquer corte na Cultura não adianta absolutamente nada para uma redução do défice orçamental ou da dívida pública. A insistência na frase 'não há dinheiro' não passa, por isso, de um pretexto para impor aquilo que é a convicção ideológica do actual governo: a cultura é um desperdício».
Mas veja mais na fonte, no blogue Cultura e Futuro.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

EM REGIME DE SUBSTITUIÇÃO



Da entrevista dada por Luís Raposo à revista Visão desta semana, a que se refere a imagem, um excerto:
«(...)
Quando diz que o seu sucessor entra fragilizado, refere-se a quê?
Não está em causa a pessoa, um arqueólogo de quem sou até amigo. Mas uma direção em regime de substituição é sempre frágil e a prazo, uma vez que terá de ser aberto um concurso. Um diretor deve ser alguém com um projeto e um curriculo que sejam avaliados precisamente durante esse concurso. (...)».

domingo, 5 de agosto de 2012

ESPIRITO CONTABILÍSTICO E CULTURA ARTÍSTICA

A política não é uma contabilidade. O exercício de uma política não se resume a fazer um orçamento. A política é uma possibilidade na crise, em austeridade, como o é em tempo de vacas gordas. Vacas gordas, sabemo-lo, são o sol que dura pouco e a crise a constante patrimonial, herança histórica, territorial, recursos naturais, qualificação cultural e qualificações profissionais do povo, democracia precária, formal e não estrutural, portanto de longa duração, a que a actual, global e europeia, se soma – nada disto é novo e o regresso de formas de salazarismo financeiro, poupança e sacrifício democratizados, uma vocação das elites e testas de ferro ascendidos. Novos mitos desenvolvimentistas estão aí, como antes estiveram as autoestradas a resolver isolamentos que com elas se acentuaram – o desenvolvimento são sempre as pessoas, quem aprenderá lá no cimo? O novo mito, em formação mediática, é trocar o mar que nos levou e trouxe ao mundo pelo que nos banha os pés, trilho emergente do dinheiro fresco a inventar na burocracia europeia e local, legalíssima.
A política é um bem necessário, raro e é imaginação e pensamento a agir na mudança, é a mudança como horizonte qualificado e pragmatismo não acéfalo. É a forma de ter uma ideia de país que seja uma ideia possível para o que o país é, o seu atraso – não europeu - e o que o potencie a partir das qualidades positivas específicas, dinâmica de enraizamento, isolados os atavismos e desigualdades ademocráticas. As comparações com nações de massa crítica, na qualificação científica e cultural das populações, são e foram muitas, os melhores recursos que temos, somos nós, os portugueses. Teremos de apostar nas nossas potencialidades, o que significa marchar, marchar, contra o desemprego crescente dos que estudaram, contra o desinvestimento nas práticas de investigação científica e económica, contra o recuo do investimento cultural, a passar do pouco – irrelevantes 0,3% - para menos que nada, negatividade pura, dinheiro para fingir que somos europeus como os demais pelo lado das fachadas – fala-se de Europa a duas velocidades, porque não a três, ou quatro? Se não for pela realidade do que sejamos, ou venhamos a ser, como identidade cultural prospectiva, essa mistura do que somos com o que seremos na relação com a Europa, o que fará de nós Europa? A questão é: andar a dizer que “não há dinheiro” ou que se estão a criar as condições para se criarem as condições de fazer o que as condições por se criar hão-de possibilitar fazer, seguindo-se a declaração de que as coisas serão como no ano anterior, como vêm dizendo do lado do Secretário de Estado da Cultura, é assumir que a política é apenas contabilidade e nada mais, pelo que, em boa verdade, poderíamos poupar no Secretário da Cultura como no aparelho cultural, todo ele improdutivo, despesismo, inutilidade. Só faz sentido aparelho cultural com política cultural. Com política contabilística atribuam ao Ministério das Finanças – e não colhe serem contra a “política do espírito”, é despropósito, diferença de tê-lo e não tê-lo.
Em boa verdade, o imobilismo, a falta de imaginação para com o mesmo fazer melhor, além do que é puro corte e cola – os cacos – é fruto não apenas da força de Victor Gaspar, mas da impreparação dos ascendidos aos papéis governativos na cultura.
A política necessita de ideias e estas de algum voo prático. E não é fazer mais com o mesmo, como disse alguém. É fazer melhor com o mesmo e inventar mais a partir do mesmo e fora desse mesmo – há muito por onde, mas é necessário ter cultura administrativa e funcionários competentes. Com quem se subalterniza aos ditames do império contabilístico nada a fazer. A cultura é outro território, outra margem, é necessário respirá-la como necessidade orgânica, democracia, acesso de todos a uma cultura “elitista para todos”. É necessário não seguir a política do dono em tudo e não cultivar o terror da “dívida” como novo pecado original. Se ao menos houvesse espírito, que não fosse o santo nem o contabilístico, poderia eventualmente haver um esboço de país cultural, de democracia prospectiva.

O QUE É QUE NÓS SOMOS?

«(...)O ano passado estive sete meses à espera do financiamento, e este ano estou na mesma situação. Coimbra está de fora das grandes empresas mecenáticas.
Em Portugal, há pessoas com fome será isto prioritário?
A cultura é essencial ao desenvolvimento de um país. Portugal estava a dar os primeiros passos para sair do subdesenvolvimento e parou. Sem escritores, artistas, músicos, o que é que nós somos? A cultura tem dado ao  país as poucas razões de prestígio. Maria João Pires, o meu amigo Paulo Furtado, o Legendary Tigerman, o Julião Sarmento, o Pedro Cabrita Reis, a Joana Vasconcelos, goste-se ou não. E antes do prestígio está a formação do país. Constroi-se um equipamento, equipas, e passado uns anos esvazia-se. Utilizam-se dinheiros comunitários para construir equipamentos mas não há dinheiro para a programação, nem orçamentam a programação. É criminoso o que se está a fazer.
Também é criminoso o que se está a fazer no campo social
Claro, somos solidários, os artistas e a cultura têm dado o exemplo.
(...)».
excerto da entrevista de Clara Ferreira Alves a Albano da Silva Pereira, Expresso-Revista-4agosto2012 (sem link)
Mas saiba mais sobre Albano da Slva Pereira numa outra entrevista, a Maria João Seixas, noJornal Público.


Albano da Silva Pereira à direita (tirada daqui)

MARILYN MONROE MORREU HA 50 ANOS



Na morte de Marilyn
Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo

sábado, 4 de agosto de 2012

«NATIONAL ARTS MARKETING PROJET»


Sou uma adepta das Redes Sociais,  não usá-las no âmbito do Marketing de uma qualquer organização penso que é uma falha. Mas como para tudo, para produzir efeito, há que ter uma estratégia e um programa de trabalho. Para isso, voltando ao National Arts Marketing Projet,  pode ser inspirador o registado nos 50 WINNING TWEETS FROM THE 2011 NATIONAL ARTS MARKETING PROJECT CONFERENCE. Veja aqui. E vai haver nova Conferência no próximo Novembro assim anunciada: «Don’t fret; the 2012 National Arts Marketing Project Conference, November 9–12, 2012, in Charlotte, NC, provides the business and marketing tools you need to plant you and your organization firmly on the ground while you set your sights high and seek new ventures».