sábado, 15 de maio de 2021

«Comum aos relatos dos que acompanharam estes dois mestres do teatro português nos seus primeiros anos é a ideia de que eram actores sublimes e de que quando era Luis Miguel Cintra a dirigir este iniciava os ensaios com uma ideia claríssima da encenação, ao passo que Jorge Silva Melo envolvia mais os actores em cada criação»

 



Sobre os  próximos «DOUTORES» que,  há muito, muitos têm gritado que são, hoje no Público/Ípsilon um trabalho de Gonçalo Frota - a não perder. Excerto: «(...)  Márcia Breia, que se juntou à companhia para integrar o elenco de Pequenos Burgueses (a peça que inaugurou o Teatro do Bairro Alto, em 1975) e por lá ficou até 2010, afina pelo mesmo diapasão: “Há uma coisa que ressalvo sempre e hei-de dizer até entrar com os textos do Shakespeare na cova — era sério. Sério no sentido em que eles acreditavam profundamente naquele teatro e era muito honesto. Podemos depois discutir se era aquilo que as pessoas queriam ver, porque [a Cornucópia] afasta-se um bocadinho do gosto geral e éramos por vezes pouco compreendidos. Não era habitual os temas serem tratados daquela maneira, pôr-se determinado tipo de peças em cena que não tinham aparentemente a saída que outras mais simples teriam.” Na companhia, diz a actriz, aprendeu “a amar Gil Vicente de uma maneira que nunca amámos” e a “cultivar aquilo a que se chamava maldade ou tortura” em algum Shakespeare, “porque a forma como a Cornucópia a punha em palco era algo muito profundo, de rasgar a pele. Aprendi ali que o teatro não era uma exibição nem da beleza natural nem de coisa nenhuma; era  uma maneira interessantíssima, quase lúdica, de estar em cena.” O rigor e a seriedade, sinónimos quase instantâneos do percurso da companhia e dos seus criadores, tinham por alicerces um enorme cuidado nas traduções (asseguradas pelos próprios ou por Manuel Gusmão, Fiama Hasse Pais Brandão, Jaime Salazar Sampaio, Luiza Neto Jorge, Maria Adélia Silva Melo e Márcia Breia) e um minucioso trabalho de dramaturgia que, na descrição de Luís Lima Barreto, actor que acompanhou a longevidade da companhia, passava por “estudar a peça em relação com o autor, com a época, com as ideias que estão dentro do texto, o que demorava”. “Estávamos muito tempo sentados à mesa, fazíamos uma análise muito profunda dos textos — algo que se manteve até ao fim — e nunca se começava a ensaiar antes de termos percebido completamente as peças. E depois havia sempre discussões muito interessantes, porque o Jorge e o Luis Miguel eram duas pessoas muito cultas, e tínhamos também connosco a Glicínia Quartin ou a Dalila Rocha.” 

 Despojamento e minúcia - Tendo estreado A Ilha dos Escravos e A Herança a 1 de Março de 1974, no Terraço do Capitólio, o 25 de Abril levou a que a Cornucópia de imediato começasse a ensaiar uma proposta politicamente mais incisiva. Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra, que partilhavam a direcção artística da companhia e se responsabilizavam pela escolha dos textos, logo propuseram ao grupo um Brecht. “E o Brecht que eles quiseram fazer foi O Terror e a Miséria no III Reich [estreado em Julho na Sociedade Incrível Almadense], que inclusivamente provocou uma certa irritação em determinados partidos políticos de esquerda que diziam ‘Então saímos do fascismo e agora vão apresentar uma peça sobre o fascismo?’”, lembra Lima Barreto. “Como se não percebessem que era exactamente isso que se queria, mostrar aquilo de que nos libertámos.” A partir daí, o discurso político estaria sempre presente, de forma mais ou menos directa, quer no percurso da Cornucópia quer, mais tarde, no dos Artistas Unidos. No imediato, de uma forma mais explícita, quando esse primeiro Brecht da Cornucópia, a peça com que Lia Gama chegou à companhia (em substituição de Raquel Maria), circulou numa “tournée promovida pelas Forças Armadas para levar Brecht ao povo português, que nunca tinha visto nada semelhante”, recorda a actriz. “Foi uma experiência”, diz, baixando o nível do romantismo ao recordar que “as condições eram precárias, as pessoas não percebiam nada, por vezes perdiam-se adereços e não se podia fazer o espectáculo e as viagens eram feitas em transporte militar.” E ainda explicitamente quando, pouco depois, Pequenos Burgueses, de Gorki, terminava com Luis Miguel Cintra ou Orlando Costa lendo excertos do Manifesto do Partido Comunista. “De tal maneira que, quando foi o 11 de Março [de 75, tentativa de golpe de Estado para colocar Spínola de novo no poder], estávamos a gravar isso na televisão e foi logo censurado”, lembra Lima Barreto. Comum aos relatos daqueles que acompanharam estes dois mestres do teatro português nos seus primeiros anos é a ideia de que eram actores sublimes e de que quando era Luis Miguel Cintra a dirigir este iniciava os ensaios com uma ideia claríssima da encenação, ao passo que Jorge Silva Melo envolvia mais os actores em cada criação. Lia Gama recorda que “o primeiro impacto podia ser complicado”. Ao ser chamada para Pequenos Burgueses (a primeira peça em que participou de raiz), lembra-se de demorar vários ensaios a perceber como o encenador queria que a sua Tatiana — “o drama personificado da pequena burguesia”, diz a actriz da sua personagem — saísse de palco em determinada cena até que, um dia, “num voo picado na diagonal” fez aquilo que Silva Melo pretendia. “Mas então porque é que não me disseste antes?”, perguntoulhe. “Porque eu também não sabia”, teve como resposta. “Isso ficou-me para sempre”, recorda. (...)».

 

 

BENTO DE JESUS CARAÇA | «A cultura integral do individuo - problema central do nosso tempo»| CONTINUA ATUAL

 

 

Há estimulos próximos para trazermos para aqui «A cultura integral do individuo - problema central do nosso tempo», de Bento de Jesus Caraça: no Encontro sobre Cultura da Associação de Municípios da Região de Setúbal o texto foi lembrado mais do que uma vez; e de certa modo dele nos lembramos porque recentemente aparece no espaço público (no âmbito da Presidência Portuguesa da UE) reflexão sobre «Democratização cultural» e «Democracia cultural». Assim, aqui está, para quem o desconhece mas também, quiçá, para ser relembrado por outros. Não é à toa que há textos que resistem ao tempo e ...  «às modas».  

 

 

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Maria João Abreu


 

A morte levou Maria João Abreu. Associamo-nos à onda de carinho que durante o dia foi crescendo em torno da atriz,  conhecida de forma quase familiar, em especial pelo seu trabalho na televisão.  Mas nós recordamos  uma entrevista  aquando da sua passagem pelo palco do Teatro Joaquim Benite com a peça FENDA: aqui.  De lá: «sentir o silêncio do público também é importante».

 

 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

ALBERTO MARTINENGO|«Prospettive sull’ermeneutica dell’immagine»

 

 

«La discussione sul potere delle immagini nelle società contemporanee attraversa da più di mezzo secolo discipline differenti: dalla storia dell’arte alla teoria dei media, dalle scienze sociali alla filosofia. Fin dalla sua origine, però, la riflessione del secondo Novecento sul fenomeno ha rischiato di tradursi in una contrapposizione tra interpretazioni trionfalistiche e previsioni catastrofiche: da una parte, le profezie di un esaltante mondo dell’immediatezza e della pura visibilità; dall’altra, le fobie e i timori destati da una realtà che sembra destinata a liquefarsi o a trasformarsi in apparenza. Questo volume propone un bilancio della questione e, spostandosi dai luoghi comuni all’indagine filosofica, ne individua alcuni temi-chiave: la fine dell’arte; la vicenda dell’ermeneutica contemporanea; la nascita della cultura visuale; le discussioni classiche e moderne sul rapporto tra l’immagine e la parola». Saiba mais.

 

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

PINGA MAIS UMA «LINHA DE APOIO» | 300 MIL EUROS |DEFINIÇÃO |«O apoio a iniciativas culturais, de carácter não profissional na Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) a ser gerido pela DGARTES, destina-se a apoiar atividades a serem desenvolvidas por entidades coletivas não profissionais, sediadas num dos cinquenta e dois municípios que integram a área territorial de LVT, de acordo com o documento em Anexo»

 

Por mais que nos queiramos distanciar «da espuma dos dias» do que institucionalmente vai acontecendo na esfera da cultura e das artes é impossível, nomeadamente porque cada novo episódio vindo «do Governo» arrasta das designadas questões estruturantes. Mais uma vez isto se passa com o que as imagens indiciam. Uma possível sintese das questões de fundo em presença: ORGÂNICAS DA ADMINISTRAÇÃO CENTRAL NO ÂMBITO DA CULTURA; AMADOR/PROFISSIONAL. E hoje esquecemos a forma como chegaram ao montante divulgado. Curiosamente, no recente Encontro centrado na Cultura da Associação de Municipios da Região de Setúbal aquelas matérias andaram por lá, desde logo, por exemplo, pela participação do Presidente da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto. Desde logo quando se perguntou o que compete ao «ESTADO CENTRAL» na vida dos Teatros Municipais - e estamos a utilizar termos usados. Não, não, a REDE tão apregoada não vai resolver o problema e para isso basta olhar para o que «se passa lá fora» e até para estudos que se foram elaborando ao longo dos tempos - mas dos atuais responsáveis quem os leu?, onde estão? E começar por ver o que se passa com os outros SERVIÇOS PÚBLICOS - a Cultura não pode ser o parente pobre.

Neste quadro algumas considerações - que já nem dirigimos especialmente ao designado Ministério da Cultura, já perdemos as esperanças - como contributo para o pensamento e ação de quem teimosamente não desiste de um SERVIÇO PÚBLICO na Cultura e nas Artes no nosso País, com horizonte e medidas imediatas, mesmo urgentes, porque continua a haver «fomes».Assim:

O MALFADADO PREMAC

A verdade dos factos: há quem continue em estado de choque com o que se passou e está a passar com as orgânicas na esfera da Cultura. Os Governos PS não anularam o Premac, que tão contestado foi. Tudo continua na mesma. Em particular na DGARTES as alterações «cegas» levaram-nos onde nos encontramos, e o simples olhar para o «organograma» mostra a aberração organizacional. Bem sabemos que no Governo há quem não pense assim e defenda que se pode trabalhar com qualquer orgânica. E de repente aqui a temos a assumir cumulativamente atribuições de uma «DIREÇÃO REGIONAL».Por mais de uma vez aqui no Elitário Para Todos temos levantada  a questão de se saber o que distingue a DGARTES (organização central) das DIREÇÕES REGIONAIS (organizações desconcentradas). E como internamente na DGARTES se desempenham os dois papéis? Há quem se lembre de reflexão em torno de um pedido de uma (à data) DElegação Regional sobre quais as orientações nacionais para o AMADOR na esfera da cultura ... E neste momento: quais são? Que estratégia? Em especial, e na circunstância,que finalidades e objetivos para a Região de Lisboa e Vale do Tejo? Claro, como a situação é miserável, tudo «o que vier à rede é peixe» ...

Mais alguns elementos que ajudam a dar suporte ao que se adiantou:

 


 

 

 

 

PROFISSIONAL/NÃO PROFISSIONAL-AMADOR 

Sobre esta questão, para quem ouviu a intervenção de Rodrigo Francisco no Encontro atrás mencionado, não pode deixar de se lembrar do momento em que o «Teatro de Campolide» ao mudar-se para Almada, decidiu ser PROFISSIONAL. Pois é, neste ano da graça de 2021 em que critérios assenta esta categorização na DGARTES? Olhamos para o «regulamanto» para mais esta «linha de apoio» e o que se conclui é que tem abordagem semelhante aos existentes para os «Profissionais». Pois é, mas o AMADOR - a coisa amada (lema seguido na Coimbra Capital de Teatro, onde estará o que lá se produziu sobre esta frente?) - tem de ter aproximações próprias ... 

CORRAM, CORRAM,  AOS 300.000 EUROS: E QUANTOS SERÃO OS POTENCIAIS CANDIDATOS DOS 52 CONCELHOS?

Mesmo os que não «gostem de contas» não poderão deixar de as fazer ao olharem para os números em presença e para os que se desconhecem mas se intuem... Por «pudor» fica-se por aqui. Apenas: uma vez mais uns contra os outros, o contrário do que deve alicerçar um SERVIÇO PÚBLICO.  


(estará desatualizado, mas para o fim em vista, «dar uma ideia», ...cumpre a função)