sábado, 6 de agosto de 2022

ANA LUISA AMARAL | deixou-nos

 

Saiba mais

Estes são poemas de precisão, questionamento e de receitas para várias crises: O Olhar Diagonal das Coisas reúne os 17 livros de poesia de Ana Luísa Amaral, trinta anos em verso inaugurados por Minha Senhora de Quê (1990), até ao mais recente Mundo (2021).

METAFÍSICO FRUTO
Um fruto reticente é a saudade:
a pele custosa à faca, olhos como
cavernas onde a faca não chega e


uma arte cirúrgica é precisa.
Não posso permiti-la no caixote
a insistir-me a alma. Por isso


insisto a arte e a minha perícia
em lhe arrancar a pele, os olhos
reticentes de Sibila.


Às fatias depois — tarefa
igual —

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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Molière há sempre, mas em 2022 ainda foi melhor

 

Veja aqui

 

« S'il est une maison de théâtre où l'on ne sait pas comment on doit jouer Molière, c'est bien la sienne. Ce n'est pas une boutade, aucune ou aucun des sociétaires ou pensionnaires de la Comédie-Française n'affirmera jamais rien le concernant, la fréquentation quotidienne, hebdomadaire, mensuelle, annuelle, décennale, séculaire de son théâtre imposant avant tout la modestie. Désigner l'art du Patron, comme on le nomme en ces murs, serait aussi vain que de choisir un juste portrait entre les centaines de dessins, peintures, gravures et bustes qui tapissent les murs des théâtres et les salles de musées. Molière aux mille visages et au mille théâtres, bien malin celle ou celui qui désignerait l'authentique. La seule autorité que nous puissions avoir, nous, en sa Maison (ou déclarée telle), c'est bien d'en dresser un portrait aussi douteux que riche, seule manière d'atteindre peut-être à un bout de vérité. Alors ne craignons pas de continuer à le pister dans toutes les directions, qu'elles soient fastueuses ou maigres, révolutionnaires ou potaches, fondées ou masquées, ciblées ou détourées. » ÉRIC RUF


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

«Para o antigo diretor de Serralves, o grande desafio em Portugal passa pela necessidade de continuidade e sustentabilidade dos projetos»

 

 

«(...) Para o antigo diretor de Serralves, o grande desafio em Portugal passa pela necessidade de continuidade e sustentabilidade dos projetos. “O que torna os projetos fortes é a continuidade e a persistência e acabam depois por provocar um efeito-espelho”, constatou, considerando que só a sustentabilidade permite criar “uma paisagem e um legado”. “Os espaços não podem ser como foguetes”, notou, destacando que há “cada vez mais gente envolvida”, sejam instituições públicas, privadas ou particulares. Segundo Vicente Todolí, num país que não é rico, é muito importante que haja “grinta”, uma expressão italiana muito utilizada no ciclismo que remete para a "garra". Se no arranque do século, o antigo diretor do Museu de Serralves tinha dificuldade em captar público, hoje acredita que a situação já não se coloca, rejeitando por completo a ideia de as artes plásticas estarem mais afastadas do público.“Isso acabou. Agora a arte contemporânea é mais conhecida do que a arte clássica. O problema é que vão ver os artistas mais mediáticos e aí entramos na mercantilização”, notou. Para Vicente Todolí, que não gosta do mundo da arte, mas da arte em si, “há cada vez mais mercantilização da arte”. “O importante é manter a independência das instituições”, disse, apontando para casos de fundações que não dependem de receitas de bilheteira para compor o seu orçamento, como fundações associadas a grandes empresas ou instituições bancárias. “A parte comercial é também aquela pela qual os jornalistas mais pegam - os preços, os mercados. Todo o mundo contribui para isso. Enfim, é assim”, disse, encolhendo os ombros, o atual diretor do Hangar Biccoca, da Fundação Pirelli, em Itália. (...)».

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É isso, ó gente, e não é apenas para a «arte contemporânea»: «continuidade e sustentabilidade dos projetos» em CULTURA é fundamental. Mas o Governo insiste em enviar «tudo» para CONCURSOS. E aí os temos estilhaçados  e para todos os gostos, e disso se orgulham os sucessivos governantes e seus executantes. E agentes culturais a concorrer, a concorrer, à míriade de processos concursais ... Qual a eficiência e eficácia de tudo isto?     Mais que não fosse por uma questão de rigor intelectual, não deviam considerar as alternativas que nos conduzem a tratar O SERVIÇO PÚBLICO DE CULTURA COM A MESMA DIGNIDADE DOS OUTROS? Mas não, insistem em começar do zero, permanentemente, mesmo quando quem esteja em causa seja dos nossos melhores. Certamente, por exemplo, que Luís Miguel Cintra se quiser continuar a maravilhar-nos vai ter de concorrer em pé de igualdade com outros que começaram agora ... E se olharmos bem, não há concursos para todos: veja-se a escolha dos Diretores dos Teatros Nacionais ...

Perante todo este panorama, o que nos resta? Desde logo, não desistir de apontar que «o rei vai nu». Voltemos a assinalar agora que um novo ano escolar se aproxima: já se imaginou as escolas a candidatarem-se para que pudessem funcionarno próximo período letivo?

Ainda: o facto de não se defender «concursos» para tudo, não significa que não haja CRITÉRIOS. Devem existir e serem claros: concebidos e aplicados com o conhecimento disponível e por pessoas preparadas.



 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

«PARTE - PORTUGAL Art Encounters»

 

 

Leia na TSF

Excertos: «Com edição bilingue, nas línguas portuguesa e inglesa, a primeira publicação-guia sobre o Turismo de Arte em Portugal pretende ser um convite para descobrir a arte contemporânea em Portugal. O PARTE BOOK insere-se na iniciativa PARTE - Portugal Art Encounters, um programa anual que apoia a internacionalização do sistema de Arte Contemporânea em Portugal. (...).A apresentação deste guia surge em paralelo com o PARTE - PORTUGAL Art Encounters que mostra Portugal a curadores internacionais e os convida a refletir sobre o conhecimento impulsionado pela arte contemporânea. Coimbra foi a primeira cidade do país a receber o seminário internacional no âmbito deste evento. Na cerimónia de abertura, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, José Manuel Silva, descreveu esta iniciativa como "inédita, provocante e ambiciosa". O autarca destacou o facto de Coimbra ser a primeira cidade do país a receber o evento, o que, diz, está em sintonia com o lugar que a cidade quer ocupar na cena nacional e internacional da Arte Contemporânea.José Manuel Silva acredita "que é fundamental valorizar e trabalhar a arte contemporânea e aprofundar o diálogo e cruzamento entre os universos da cultura e do turismo, criando-se e potenciando sinergias, práticas colaborativas e potencialidades convergentes".Dia 6 de agosto, a cidade de Loulé recebe a segunda parte deste evento, com novas discussões em torno da arte contemporânea».

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Com curiosidade ouvimos a notícia na Rádio sobre a «PARTE - PORTUGAL Art Encounters». E depois fomos à procura de saber mais. E confessemos que nos suscitou desde logo atenção a designação PARTE: é que, como dizer, um movimento PARTE está subjacente a este blogue, ou seja, por trás do ELITÁRIO PARA TODOS. E,  então, uma boa ocasião para lembrarmos o início: 


De lá:  Dissemos no post anterior que este Blogue é da PARTE - Plataforma das Artes do Espectáculo. Mas, verdadeiramente, o que é a PARTE?   Revisitemos o início com o acontecimento que a originou, pelo menos na designação: um encontro que houve no Centro Nacional da Cultura,  em Junho de 2005, em que foram oradores, entre outros,  Guilherme de Oliveira Martins, Rui Vieira Nery, Miguel Azguime, José António Bandeirinha, Fernando Mora Ramos , Vasco Welenkamp,  Maria do Céu Guerra, E as interrogações assinaladas no «Press  Release» que o divulgou não deapareceram, podendo dizer-se que o debate tem de continuar, e agora recorrendo-se a outros instrumentos como é este blogue e o site que lhe está associado - PARTEplataforma -  sem  se abondonarem os encontros face - a - face. Do que se escreveu na  ocasião:

«O serviço Público nas Artes de Cena já teve um horizonte: quando houve uma política de convergência com a Europa, centrada também na cultura. Fôz Côa foi então um símbolo propulsor, os Centros Regionais das Artes do Espectáculo avançaram - onde é que essa «rede» hoje tece a sua malha? - e pela primeira vez se afirmou um Teatro Nacional (TNSJ) com um programa de verdadeiro Centro Dramático. Noutras áreas como o cinema ou o livro, verificou-se uma política de expansão. O país colocava como prioridade da sua modernização o que apenas fora tema de rituais de ocasião: a cultura e as artes.
A cultura artística descobria-se economia, emprego e buscava um novo ordenamento nacional, estruturante da nossa identidade, não já como perfil de «um modo de ser português», mas como criação de uma «nova alma» fermentada no melhor da nossa tradição e reinventada em diálogo com a arte contemporânea, europeia e cosmopolita - no seu melhor, claro.
(...)»

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Procurando, naturalmente, chegámos ao site da «Portugal Art Encounters» - https://portugalartencounters.com/. E ficamos a saber isto:  «PARTE Portugal Art Encounters é um programa anual e de continuidade que apoia a internacionalização do sistema da Arte Contemporânea em Portugal. Reforça a relação histórica entre Arte e Turismo, para afirmar Portugal como destino de referência no circuito artístico.
 O programa concretiza-se em dois circuitos consecutivos PARTE Circuits, que culminam com a realização do seminário internacional PARTE Summit e o lançamento da publicação PARTE Book.

PARTE é um programa da empresa Flamingo Circuit, desenvolvido em parceria com o Turismo de Portugal, I.P. e conta com o apoio do Ministério da CulturaDireção-Geral das Artes, no âmbito da dinamização da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC)».

   

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Por acaso ainda não conseguimos ver bem o que aqui está em causa. Mas uma coisa é facto: estamos perante um programa de uma EMPRESA do mundo dos negócios. Certo? E já é sabido que por aqui pensamos que os negócios no âmbito das artes devem ser apoiados como quaisquer outros. Com regras. E é por isso que defendemos que não se deve confundir SERVIÇO PÚBLICO DE CULTURA com as designadas INDÚSTRIAS CULTURAIS E CRIATIVAS (ou designação equivalente). Há que ter POLÍTICAS PÚBLICAS para cada um dos campos, a bem dos dois.

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 Esta coisa de uma vez mais  no dizerem «pela primeira vez», deixa-nos «a pulga atrás da orelha». Certamente que o que se publica hoje beneficiará das tecnologias entretanto descobertas. Procurem, procurem, e vão ver que no passado já houve publicações. E uma curiosidade: verdadeiramente, quem na esfera do Ministério da Cultura trata hoje de uma maneira integrada  da designada «Arte contemporânea» no âmbito das Artes Plásticas? Antigamente sempre houve serviços próprios e mesmo Organismo autónomo... A propósito: veja no blogue de Alexandre Pomar. 

  

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E uma vez mais nos lembramos da Conversa da Cerca do Festival de Almada desde ano,  onde se alertava para as coisas que vão acontecendo sem que verdadeiramente se dê por elas... E à partida serão inatacáveis. Mas precisamos de perceber ... E vamos procurar saber mais sobre o que aqui está em causa ...

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E há quem olhando, e «cheirando», o que vai acontecendo à volta, e como acontece, se lembre de filme de Ingmar Bergman, O OVO DA SERPENTE.

 


  

sexta-feira, 29 de julho de 2022

PARA NOS AGITAR ( E EMOCIONAR) NESTE VERÃO QUENTE DE 2022 | lembrar «Mitin de Julio Anguita en Málaga el 18 de marzo de 2015»












UMA PERGUNTA SINGELA | como é determinado o valor do Orçamento do Estado para a Cultura?

 


captura em 29 JUL 2022



E de repente - ver imagem inicial - ao modo 2018, assim apetece dizer. Mas antes dos resultados: de facto, os agentes culturais dirigem-se ao Ministro da Cultura para que se encontrem mais verbas para os financiamentos do Estado às artes através de concursos. «Financiamento», dizemos nós, porque «Apoios» é o termo usado, e certamente  que mais  adequado à realidade. Quem sabe utilizar o termo institucional «Auxílios». Ainda parece mais ajustado. Pelos anos 2018/2019 lembremos que a movimentação foi grande, perante o desfecho dos concursos. Do Primeiro Ministro  até houve uma carta aberta.  António Costa  veio a terreno e o dinheiro foi aparecendo ... Não será difícil identificar injustiças que não chegaram a ser colmatadas no meio da «satisfação» alcançada ... Pelo que se leu nos últimos dias parece que estamos a reeditar o processo, mas precavidos os agentes culturais antecipam-se. Tal como muitos  disseram no passado isto mais parece «terceiro mundo», com o devido respeito pelos paises que nele se integram. 

Para contextualizarmos, do que rapidamente encontramo através do Google sobre 2018:

 

Agora, por exemplo, do Observador:

«(...) A reunião com Pedro Adão e Silva juntará representantes da Plateia, da Ação Cooperativista, da Acesso Cultura, da Descampado, da Rede - Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea, da Associação de Artistas Visuais em Portugal, da Performart - Associação para as Artes Performativas em Portugal, do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audioisual e dos Músicos (Cena-STE).

A DGArtes abriu, no dia 13 de maio, as candidaturas a seis concursos de apoio sustentado às artes, nas modalidades bienal (2023-2024) e quadrienal (2023-2026), com um montante global de 81,3 milhões de euros.

A 25 de maio estas entidades lamentavam a "política de precariedade e austeridade" e apelavam ao Governo para que aumentase maio,a dotação orçamental dos programas de apoio financeiro.

Para aquelas associações, esta dotação "está abaixo dos valores já gastos ou previstos para 2021/2022. Isto fará com que muitas estruturas percam o seu financiamento, e que tantas outras fiquem, novamente, sem acesso ao programa, mesmo apresentando projetos com qualidade".

“Muito menos, este programa poderá garantir o combate à precariedade laboral e o salto qualitativo e quantitativo na criação e difusão artísticas, tão urgentes”, afirmaram.

Segundo a DGArtes, o montante financeiro global disponível para estes seis concursos, de 81,335 milhões de euros, "representa um incremento de 18% em relação ao ciclo de apoio anterior (2018-2021)".

Os concursos bienais têm uma verba total de 20,5 milhões de euros e os concursos quadrienais contam com 60,8 milhões de euros.

Para as associações que representam os profissionais da Cultura, “estas linhas de financiamento do programa de apoio sustentado da DGArtes são dos mais importantes mecanismos do Estado para assegurar o direito constitucional de acesso à cultura”.

Nesse novo ciclo de apoios, “é, ainda, essencial que as estruturas venham a ter condições para levar a cabo a urgente transformação das práticas laborais, garantindo mais rendimento, proteção social e direitos laborais a quem trabalha nestas áreas”, lembraram as associações, numa referência à aplicação do Estatuto dos Profissionais da Cultura. (...)».


Tudo isto é triste. Se bem analisamos, para uma coisa «à serio», haveria que começar por responder a esta pergunta: como é determinado o valor do Orçamento do Estado para a Cultura? Em particular: como são dimensionadas as verbas que vão para o SERVIÇO PÚBLICO que é garantido pelos Agentes Culturais particulares «sem fins lucrativos», também conhecido por Terceiro Setor? «Cheira-nos» que o novo ciclo já está no adro, mas dá ideia que ainda não devia lá ter entrado. E 2023  tão perto! E o futuro sem uma VISÃO que nos mobilize e encante. E isto é demasiado importante para ser apenas uma «questão dos artistas». É um problema de todos nós! Mas veja-se, por exemplo, como foi tratado nos «Estado da Nação»! Nomeadamente no Parlamento e pela Academia. E os Agentes Culturais veem-se na obrigação de se chegar à frente e «fazerem as contas» que deviam existir e ser públicas nos estudos que os serviços têm obrigação produzir. Mas que não existem. De vez em quando lá há um em «outsourcing», mas para os quais faltam dados e informação de partida... Mas quem quer ver, ouvir e ler sobre tudo isto?