quinta-feira, 8 de maio de 2014

A banana, os bananas e as semiologias




A banana, os bananas e as simiologias

Os tempos vão de uma superficialidade prenhe de velocidade constituinte. O fugaz da coisa sobrepõe-se à possibilidade da sua compreensão e a coisa acontecida, sobrepondo-se numa instante explosão estelar, esconde a anterior num efeito permanente que faz do real aquela imensa parte do iceberg que deixa de se ver e se junta à que nunca se vê, lá onde o segredo da política a torna privada e lucro tribal de chefes e apaniguados.
Antes de pousar e ser apreensível, apropriável, o que quer que seja que faça parte deste fluxo do real e tenha acontecido – célula narrativa - reparte para o espaço da sua expansão mediatizada na sua ilimitada reprodução em todo o tipo de suportes tecnológico-imagéticos, que sobre o real estão focados como abutres sobre a possibilidade sempre desejada de um cadáver fresco – é assim que se alimenta o share, esse animal massivo voraz. É o caso da banana do Dani Alves, cadáver agora celebrado, que teve um gesto invulgar: comer uma banana à vista do planeta – diz-se agora que orientado por um conselheiro publicitário bem intencionado!!!? O gesto remete, por contraste opositor, para aquela frase do Osvaldo de Andrade que dizia que “só a antropofagia nos une” já que a banana não seria uma banana mas a alma do inimigo, o racismo, assim executado. Na frase do modernista a ideia seria a de adquirir as qualidades do outro.
Entretanto, num outro nível de leitura menos metafórico mas também rico, Dani Alves desmontou o gesto do tolo de aldeia global futebolística que o agride ao fazer o que é natural, comer a banana e tomá-la pelo que é literalmente, uma banana. Só um imbecil é que pensa que comer bananas é coisa de macacos no sentido em que os macacos são menos capazes de paladar do que nós e que ser macaco é ser menos que ser europeu e caucasiano, por exemplo. Tomaram os macacos e uma parte imensa de famintos em franco crescimento populacional entre nós, comer bananas – as da Madeira estão caríssimas. Na realidade, o Dani Alves adquiriu potássio a meio do jogo e comeu a musa - é como se chama a espécie comida. Tudo gestos de uma inteligência pouco futebolística, aparentemente. E é isso que espanta. Parte-se do princípio, para tanto espanto pela atitude, que o jogador é burro e que portanto reagiria agressivamente, cuspiria no adepto – na bola, cuspir-se, é um gesto identitário, a relva que o diga – faria um pinete, exibiria os genitais ao inimigo provocador, qualquer coisa do tipo. Essa é a visão que o tolo de aldeia global, o adepto inimigo-burro, tem do outro. Ele não espera que o “outro” jogador jogue o inesperado e menos ainda que jogue uma inteligência que o adepto não teve quando lhe atirou a banana e que, na realidade, não tem nem pratica – a inteligência é uma prática e um processo, um método, não se pratica num relvado tão amplo em profundidade analítica, embora tenha os seus níveis de objectivação nas pernas que correm, nas cabeçadas oportunas, nas bolas paradas e na visão periférica de poucos. Já o contrário não se pode dizer: que o jogo, o campo e sua TV, e sobretudo os adeptos não sejam um laboratório particularmente útil à chamada simiologia.
A reacção da média carnavaliza algo mais profundo. Neste momento já há mais bananas na floresta mediática que as que se produzem e o negócio remontou. Mas vejamos: primeiro o futebol é um território de guerras civis em efervescência continuada – alimentada - em que se projectam radicalismos de diversa índole. É o espaço físico presencial massivo do pão e circo contemporâneo em que se vazam frustrações e desejos tribais mediatizados, bairristas, contra “o outro”, seja ele do outro clube, seja árabe, seja negro, seja mulato, seja o que for que não seja supostamente esse nós reconhecido, ou o nosso “preto aculturado/branco por dentro”, como um certo Rei da bola – no tempo colonial falávamos muito desta categoria de pessoas, via única para muitos de ter de viver, é necessário compreendê-lo. Segundo, o primado da vitória traduzido na necessidade de humilhar o derrotado, que todo um tipo de média alimenta de modo interligado num espaço mediatizado uniforme e único, satisfazendo esses instintos básicos de uma “audiência” fabricada nos entretenimentos televisivos e desenvolvendo narrativas de luta constante entre gladiadores da bola, estabelece a regra constante de um comportamento que é exactamente o que se espera do militante clubista para vender o contrário – um e outro movimentos fazem o share. É como aquele tipo de escritório de advogados que ganha dinheiro com a defesa do réu e com a sua acusação, a natureza do crime ou a verdade isso são coisas da filosofia, o direito é um balcão.
Em Os Persas, Ésquilo faz o contrário, canta a dignidade dos vencidos. Mas isso era naquele dantes arcaico e matricial em que a democracia das atitudes não era vã e o outro era motivo de culto por ser outro, já que um certo tipo de heroísmo tinha fundamento épico e respeitar o adversário só engrandecia o vencedor. O Dani Alves teve um gesto simples, agradeceu a “prenda” celebrando-a na mastigação.
Não se é de um clube sem se ser – relativamente pois, estamos nos tempos do hard e do soft - contra em relação a qualquer outro. Um contra que é isso mesmo, acéfalo e racista, pleno de arrogância tribal. Obviamente que na era em que os clubes são empresas e em que a ideia de terem uma identidade de tipo cultural, nacional, nada diz, o que sucede é de facto que os universos clubistas são empresariais e o fanatismo a forma específica de uma “cidadania” praticada por transfert, confundindo-se a empresa com a nação – a ideia de um clube que é mais nacional de que outro clube também português num tempo de mercantilização absoluta e de investimento especulativo, é pura ideologia, encobrimento. A mesma “cultura tribal-empresarial” acontece num território de supostas diferenças culturais-civilizacionais, fabricadas, cuidadosamente elaboradas virtualmente pela tal publicidade, a subliminar e a brutal.
A cegueira instalada na bola vai ao ponto de se assassinar o adversário com very lights, ao tiroteio de rua, como agora em Nápoles com vários feridos e um deles em perigo de vida.

O que vale uma banana? Um banana, nós sabemos. O tal adepto imbecil, tolo-global e aldeão, foi crucificado e já se fala de uma vitória sobre o racismo, etc. É tudo de uma pobreza mental confrangedora e é essa idiotia que faz o ambiente – como no resto pensa-se que se resolvem as coisas com a lógica da campanha publicitária como se esta alfabetizasse corações, mas não, formata sem formar. É o que se respira que forma as cabeças e quando se respira o que polui só erradicando a poluição se resolve. Cortando na raiz e educando para a liberdade livre e sábia, culta e laica. A mesma cena do mesmo próximo episódio está para breve. Num estádio perto de si. Os porcos há muito triunfaram sobre os macacos, esses nem entravam na narrativa.
Fernando Mora Ramos

terça-feira, 6 de maio de 2014

"A Cantiga Era uma Arma" | Joaquim Vieira





«"A Cantiga Era uma Arma", acerca dos músicos e das músicas do 25 de Abril e do PREC, que estreia na RTP2 a 6 de maio de 2014, assinalando os 40 anos do concerto que reuniu no Palácio de Cristal (Porto), pela primeira vez, os cantores que permaneciam em Portugal ao tempo da ditadura com aqueles que estavam no exílio». Saiba mais.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

FORMA DE VIDA Nº 4 | «Para que servem as Fundações ?»

 

«Acaba de sair o nº 4 da Forma de Vida. Nele colaboram Miguel Tamen, Francisco Bosco, David Antunes, Rob Reich, Carlos Monjardino, Artur Santos Silva, Rui Hermenegildo Gonçalves, Michael Baum, Carla Quevedo, Alice Sant'Anna, Daniel Jonas e Sebastião Belfort Cerqueira. Publicamos ainda uma entrevista a Quentin Skinner conduzida por Teresa Berjan, traduzida por Telmo Rodrigues, e uma selecção do ensaio fotográfico de João Pedro Cortes, Costa».  Tema: «Em Março de 2013, foi publicado na Boston Review um simpósio em torno do ensaio de Rob Reich, «Para que servem as fundações?». No presente número, procuramos trazer essa discussão ao contexto português».

domingo, 4 de maio de 2014

DIRIGENTES PARA ORGANISMOS DA CULTURA | Quem quer saber ?

Podemos  ler no site da CRESAP: «A CReSAP assegura com transparência, isenção, rigor e independência as funções de recrutamento e seleção de candidatos para cargos de direção superior da Administração Pública e avalia o mérito dos candidatos a gestores públicos». Mas alguém sabe o que se passa com um grande número de Dirigentes para os Organismos da Cultura? : DGARTES; Livro, Bibliotecas  e Arquivos; Património; Planeamento e avaliação ... . Veja  do que temos escrito sobre este folhetim.
E sobre os concursos nas Administrações Públicas esta notícia exige atenção.
Nesta altura do campeonato, o sistema já merece ser avaliado, e nomeadamente o papel da CRESAP. Quase que se poderia dizer: Para melhor, está bem, está bem...Para pior deixassem estar como estava. 
E daqui:   «A CRESAP, como há dias num colóquio promovido por um jornal o 1º ministro "deixou cair", foi um produto consensualizado com o (para não dizer uma exigência do) PS. É, pois, natural que alguns dos eleitos, dos poucos dos escolhidos, sejam "apreciados" com reticências públicas e notórias».
Assim vai a República ... .

O 25 DE ABRIL E A (RE)INVENÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL PORTUGUÊS | Luís Raposo