terça-feira, 21 de agosto de 2012

O ARROZ DO PONTAL


Publicado no jornal Público a 17 de Agosto

O arroz do Pontal
O discurso de Passos Coelho, ontem, no lugar nobre chamado Pontal, enquanto um arroz de marisco cozia - o tempo previsto era o da sua cozedura disse o primeiro-ministro - ficará nos anais do populismo como uma peça de veemência retórica idêntica a poucas. Em boa verdade nos seus longos três quartos de hora - não esquecer o arroz ao lume - não se ouviu nada de concreto sobre os nossos problemas reais, a dívida, o desemprego, o crescimento económico, etc. No dia em que o desemprego chega aos 15% - 17,5% na zona de Lisboa - e a recessão toca os 3,3%, foi de facto necessário empolgar os portugueses com palavras de ilusão empenhadas na ocultação destas realidades.
O mais evidente traço do empolgamento ministerial foi o que se traduziu no apelo abstracto ao empenhamento militante – por momentos as fronteiras laicas foram-se - de todos os portugueses no caminho traçado. E qual é? Não gastar – rima com Gaspar – mais do que aquilo que se deve, ou se tem a consciência de poder gastar, isso foi o pecado que nos levou ao desastre – como se fossemos perdulários por razão genética e todos fossemos “escudeiros”, como Vicente satirizava e como se a maior parte dos portugueses não fizesse bem as suas contas. Eis que fazendo assim, poupando e não gastando demais, o milagre acontece – claro que a creditarização da economia não joga aqui nenhum papel, nem o capitalismo, que é boa pessoa, ético e desconhece a ganância e o lucro. É tudo uma questão moral, de moral individual. Se cada um de nós for honesto consigo mesmo a coisa dá-se. No passado não foi assim, não fomos assim… A questão assim colocada é uma questão de identidade, de pecado identitário de abuso, de gastar o que se não tem, o que, superado, pela consciência agora arrependida do que foi e rectificando, ajuda a resolver a questão económica – se cada um o fizer, todos juntos seremos muitos. E será já em 2013 que o milagre se dá, isto das promessas tem o tempo do ciclo governativo. Esta lógica plena de portuguesismo agora adoptada pelo estadista principal, que nem sequer culpa o PS de Sócrates, nem o PREC, pelos males que nos caíram em cima, o que outros farão, lembra como quanto mais as coisas andam para trás maior é o apelo à pátria em abstracto, como nos tempos da guerra – o número de vezes em que estivemos todos juntos e aos abraços no mesmo barco que o primeiro-ministro navegou no discurso não têm conta. Como se o país fosse uma realidade homogénea, uma espécie de tribo da mesma língua – mesmo aqui o desacordo é violento, veja-se a questão do “acordo” ortográfico - e os contrastes, as diferenças, as desigualdades e o seu aumento gritante não interessassem à lógica da recuperação necessária, mesmo dizendo-se que não há reforma da saúde contra os médicos, os enfermeiros e os técnicos.
Isto é: mais dinheiro para os bancos, privatizações a enriquecer os mesmos, escola de novo a elitista – massiva para a maioria e elitista para quem tem euros – saúde a preços justos e gorduras do Estado cirurgicamente cortadas, essas são as questões, as outras sacrifícios necessários. Tem que ser e o que tem que ser tem muita força – já ouviram esta, não? Tudo com erros claro, mas quem não erra? Quando necessário, o discurso da competência apela ao rigor absoluto, como será de esperar em relatórios sobre matérias financeiras, quando essa competência não se atinge o erro é uma inevitabilidade humana. Como se diz do relatório sobre as Fundações, em que a Gulbenkian recebe nota negativa, a Gulbenkian que é uma Fundação privada a ser analisada num relatório das públicas. Este nível de discurso é de facto populista, vazio, entretém estratégico. E obviamente tem dois contextos, o do arroz, que o culmina e o outro, aquele que se liga à hora nobre televisiva e que é no fundo uma espécie de conversa em família – tanto paternalismo aconselhador faz lembrar esse estilo, na realidade irmanado com o anterior, o do “manholas”.
Já a inevitabilidade de a rentrée política ser algarvia diz muito das rotinas e dos hábitos políticos – porque não fazer a rentrée no Pulo do Lobo, perto dos falhanços nada patrióticos do projecto de Alqueva?- assim como o contexto gastronómico envolvente, mas afirmar que passámos nos quatro exames da troica e que ainda temos cinco pela frente e dizer que é um feito o que isso expressa – 15% de desemprego e 3,3% de recessão – releva da total incapacidade autocrítica. No seu estilo educado e com o empolgamento medido, sem abusar, não o revelem um Chavez de direita, o primeiro-ministro nada disse de substantivo relativamente à saída da actual situação. Se tal saída passa por uma melhor avaliação pelos gerentes da Caixa Geral de Depósito dos méritos individuais daqueles que pedem crédito para investimentos empresariais, expressos em boas ideias, disse, então a questão é remetida de facto não para quem governa mas para quem gere dinheiro e lucra com ele por finalidade – o Estado só corta. Eis o seu papel. Mais valia transformar a pátria que se referiu numa entidade banqueira. Desse tipo de processo não há país que saia para lado algum, quando muito há sucesso empresário.
Ainda hoje um nobel da economia, o senhor Stiglitz, chamou a atenção para o disparate das políticas austeritárias, que levam à bancarrota e para a necessidade da reestruturação das dívidas. A austeridade é a recessão. Poupar e ser patriótico por se acreditar que este é o único caminho, reconhecendo haver outros para efeitos de imagem de abertura à pluralidade, faz de facto lembrar as receitas do dinossauro excelentíssimo. Porque será que a nossa direita é tão arcaica e falha de qualquer novidade? Oxalá Passos Coelho fosse social-democrata.
Fernando Mora Ramos    

Sem comentários:

Enviar um comentário