segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

«A UNESCO acaba de publicar a mais recente edição do seu relatório de referência, “Re|pensar as Políticas para a Criatividade”, um documento que analisa um panorama cultural em profunda transformação, marcado pela digitalização acelerada, pelo avanço da inteligência artificial (IA), pela reconfiguração do comércio mundial e pelo aumento das ameaças à liberdade artística»

 

 
 
 
 
«The 2026 edition of the Re|Shaping Policies for Creativity report provides an in-depth overview of policy developments shaping the cultural and creative sectors worldwide. 
It examines key challenges and emerging opportunities related to the digital environment and Artificial Intelligence, global trade, sustainable development, mobility, gender equality and artistic freedom. As the fourth report monitoring the implementation of the 2005 Convention, it strengthens the evidence base for informed, inclusive and forward-looking cultural policymaking at national and international levels».

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Sobre o Relatório no «bom dia Europa»
 
 
 Reproduzimos:

«Segundo Khaled El-Enany, diretor-geral da UNESCO, o relatório — considerado uma referência internacional na última década — propõe uma renovação do apoio a artistas e profissionais da cultura, apresentando um roteiro com mais de 8.100 medidas políticas destinadas a responder aos desafios estruturais que a IA e a transformação digital colocam às indústrias criativas.

Diversidade cultural reconhecida, mas insuficientemente estruturada

O documento sublinha que, embora as indústrias culturais e criativas sejam cada vez mais reconhecidas como motores de crescimento económico, coesão social e desenvolvimento sustentável, os sistemas que as sustentam continuam frágeis e desiguais.

Cerca de 85% dos países inquiridos integram as indústrias culturais nos seus planos nacionais de desenvolvimento. No entanto, apenas 56% estabeleceram metas culturais específicas, evidenciando um desfasamento entre compromisso político e ação concreta.

O comércio mundial de bens culturais duplicou, atingindo 254 mil milhões de dólares em 2023, sendo que 46% das exportações provêm de países em desenvolvimento. Ainda assim, estes representam pouco mais de 20% do comércio global de serviços culturais, refletindo disparidades crescentes num mercado cada vez mais orientado para formatos digitais. Paralelamente, o financiamento público direto da cultura permanece residual — menos de 0,6% do PIB mundial — e continua em declínio.

 A mobilidade artística enfrenta também obstáculos persistentes: enquanto 96% dos países desenvolvidos apoiam a mobilidade dos seus artistas para o exterior, apenas 38% facilitam a entrada de criadores oriundos de países em desenvolvimento.

A fratura digital agrava desigualdades

A digitalização ampliou o acesso a ferramentas criativas e a novos públicos, mas aprofundou desigualdades económicas e estruturais. Atualmente, as receitas digitais representam 35% dos rendimentos dos criadores, face a 17% em 2018 — uma mudança estrutural acompanhada de maior instabilidade financeira e de riscos acrescidos de violação da propriedade intelectual.

Até 2028, prevê-se que a IA generativa possa provocar perdas globais de receitas na ordem dos 24% para criadores musicais e 21% para o setor audiovisual. A assimetria de competências digitais é igualmente significativa: 67% da população nos países desenvolvidos possui competências digitais essenciais, contra apenas 28% nos países em desenvolvimento.

A concentração do mercado em torno de um número reduzido de plataformas de streaming e a opacidade dos seus algoritmos de seleção de conteúdos contribuem para a marginalização de criadores independentes. Além disso, apenas 48% dos países produzem estatísticas que permitam acompanhar o consumo cultural digital, limitando a eficácia das políticas públicas.

Liberdade artística sob pressão

O relatório destaca ainda o aumento das ameaças à liberdade artística e à segurança dos profissionais da cultura. Apenas 61% dos países dispõem de organismos independentes para monitorizar a liberdade de criação. Em contextos de instabilidade política, conflito ou deslocação forçada, os riscos intensificam-se, mas apenas 37% dos Estados reportam iniciativas específicas de proteção.

Os mecanismos de apoio a artistas em risco permanecem fragmentados e subfinanciados, ao mesmo tempo que a vigilância digital e os enviesamentos algorítmicos colocam novos desafios à liberdade de expressão.

Desigualdades de género persistem

Apesar de progressos, as disparidades de género continuam evidentes. A representação feminina na liderança de instituições culturais nacionais aumentou de 31% em 2017 para 46% em 2024. Contudo, a diferença entre regiões é significativa: nos países desenvolvidos, as mulheres representam 64% dos dirigentes, enquanto nos países em desenvolvimento esse valor não ultrapassa os 30%. O relatório observa ainda que muitas políticas continuam a posicionar as mulheres sobretudo como consumidoras de cultura, em vez de as apoiar como criadoras e líderes.

Convenção de 2005 como eixo estruturante

Há mais de duas décadas que a UNESCO coloca a cultura e as indústrias criativas no centro das políticas globais, através da Convenção de 2005 sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. A edição de 2026 do relatório constitui a quarta avaliação do progresso na implementação desta convenção.

Com o apoio do Governo da Suécia e da Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, a organização já auxiliou mais de 100 países na conceção ou reforma de políticas culturais, reforçando a proteção socioeconómica dos artistas, promovendo a transição digital e capacitando comunidades vulneráveis.

Mais de 8.100 medidas culturais foram adotadas pelos Estados-Partes da Convenção, e, através do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural, foram apoiados 164 projetos em 76 países do Sul Global, abrangendo áreas como cinema, artes performativas, artes visuais, design, música, edição e media.

 Num contexto de rápidas transformações tecnológicas e tensões geopolíticas, a UNESCO conclui que o reforço das políticas culturais não é apenas uma questão sectorial, mas uma condição essencial para assegurar diversidade, inclusão e sustentabilidade no ecossistema criativo global».

 

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