segunda-feira, 10 de junho de 2024

CONFIRMA-SE! | O PIB NÃO DIZ TUDO | PALAVRAS DA VICE-GOVERNADORA DO BANCO DE PORTUGAL | «(...)No entanto, o bem-estar ou a qualidade de vida da população de um país não devem ser avaliados apenas em termos de rendimento per capita. O PIB per capita não contabiliza – pelo menos diretamente – dimensões relevantes, como o acesso à saúde, o tempo de lazer, a repartição dos recursos pela população, a segurança ou a qualidade do meio ambiente. A inclusão destas dimensões na análise é relevante, evitando que as políticas públicas se concentrem apenas no crescimento económico e melhorem também outros aspetos da qualidade de vida dos cidadãos(...)»| E EM AMBIENTE DE ELEIÇOES CHEGÁMOS A JOÃO OLIVEIRA ELEITO PARA O PARLAMENTO EUROPEU | ISTO ANDA TUDO LIGADO!

 

Literalmente, decorriam as eleições Europeias e por aqui estávamos a dar uma olhadela pelas intervenções havidas no «encerramento das comemorações dos 25 anos da Ordem dos Economistas». Já agora, antes da ORDEM houve uma Associação de Economistas tocada pelo fulgor do 25 de abril ..., e pensamos que os associados de «forma natural» passaram para a Ordem ...   E se quer saber mais, há sempre alguém que nos ajuda - por exemplo aqui. (Se nos é permitido, não ficava mal aludir ao assunto - ao «fulgor» - na «história» da Ordem ..., mas adiante).  Vamos lá ao encerramento. Diga-se que  não partimos com grande entusiasmo para a coisa. Eventualmente sendo injustos, apetece-nos dizer que  são sempre os mesmos ou sendo diferentes fica-se com a ideia de que pensam em regra de igual maneira e sobre as mesmas coisas ... E até apetece ir averiguar opções partidárias, e só termos esse pensamento «nos odiamos», nos sentimos mal. Mas a «olho nu ...». Gostávamos  que  numa Ordem fosse a qualidade do pensamento o fator   mobilizador ... E contactar com ALTERNATIVAS, modos de olhar  diferentes mas fundados, a base de escolhas e convites... E nada quanto a representatividade partidária, mas sempre os «maiores»?,  quase em exclusivo!,  teremos de concluir que há aqui alguma pobreza ... A originalidade, quantas das vezes está noutras moradas, e todos ganhamos em com elas contactar.   E por vezes ocorre-nos o que Clint Eastwood diz num dos seus filmes, se bem nos lembramos também a propósito do que se passava numa «associação», onde todos pareciam felizes:  «davam prémios uns aos outros». Em jeito de lazer?, então,  força!, se isso os contenta ... Mas  lembramos com frequência estas palavras de SAMPAIO DA NÓVOA: "Espanta-me a quase ausência ou fraca presença destes temas no debate político, fala-se sempre das mesmas coisas, ignorando o mundo à nossa volta. Parecemos cegos. A cultura que aqui nos reúne não serve para entreter, serve para criar, pensar, acordar e nos ajudar a ver o que ainda não vemos. Hoje, mais do que nunca, o que me interessa são os direitos humanos".

Pois bem neste quadro não muito animador, eis que parámos na intervenção seguinte e logo com vontade de partilhar:

 

Intervenção da Vice-Governadora Clara Raposo na sessão de encerramento das comemorações dos 25 anos da Ordem dos Economistas

27 MAI 2024


 

Excerto (o destaque é nosso):

 

«(...)

 Evolução do bem-estar em Portugal

Estes desenvolvimentos deverão ser prosseguidos sem descurar a contínua convergência dos níveis de vida entre os Estados-Membros, que assume um papel determinante, promovendo a coesão social e o apoio dos cidadãos ao aprofundamento da integração europeia e da união monetária. A política de coesão da União Europeia e os fundos estruturais têm, desde a sua génese, uma natureza redistributiva contribuindo para melhorar o bem-estar das regiões menos desenvolvidas.

O PIB per capita – medido em paridades de poder de compra, ou seja, corrigido pelos diferenciais de preços entre países – tende a ser o indicador privilegiado na análise de convergência económica. Este indicador constitui uma boa primeira aproximação do nível de vida da população e é fácil de comparar entre países. 

No entanto, o bem-estar ou a qualidade de vida da população de um país não devem ser avaliados apenas em termos de rendimento per capita. O PIB per capita não contabiliza – pelo menos diretamente – dimensões relevantes, como o acesso à saúde, o tempo de lazer, a repartição dos recursos pela população, a segurança ou a qualidade do meio ambiente. A inclusão destas dimensões na análise é relevante, evitando que as políticas públicas se concentrem apenas no crescimento económico e melhorem também outros aspetos da qualidade de vida dos cidadãos. 

No Boletim Económico de março deste ano, o Banco de Portugal apresentou uma avaliação do nível de vida dos cidadãos portugueses face ao dos seus pares da União Europeia, utilizando um índice de bem-estar proposto na literatura académica. Este índice tenta colmatar as limitações do PIB per capita, considerando dimensões como o nível de consumo, o tempo de lazer, a esperança de vida e a desigualdade. A sua base teórica, assente no conceito de utilidade esperada ao longo da vida, é uma vantagem face a outros indicadores de bem-estar. 

A ideia subjacente ao indicador de bem-estar é simples: no modelo de base existe um indivíduo representativo em cada país que aprecia consumo e lazer, está tanto melhor quando mais longa for a sua vida e prefere um mundo menos desigual. Desta forma, países com níveis de consumo mais altos e maior esperança média de vida – como a Suécia ou a Bélgica – apresentam níveis de bem-estar elevados, enquanto países com menor consumo, mortalidade mais elevada e maior número de horas trabalhadas – como alguns países do leste europeu – exibem níveis de bem-estar inferiores. Note-se que a existência de diferenças significativas nestas dimensões – consumo, lazer, esperança média de vida e desigualdade no consumo – podem implicar que dois países com PIB per capita próximos possam ter índices de bem-estar distintos: à partida, a medida de bem-estar deverá dar-nos uma melhor indicação da qualidade de vida das pessoas.

Não obstante a presença de diferenças (ainda) significativas no nível de vida entre Estados-membros, este trabalho mostrou que se observou um processo de convergência na União Europeia ao longo das últimas quase três décadas. A evolução das condições nos países que aderiram mais tardiamente à UE teve um papel determinante neste resultado. 

Durante este período, e apesar dos choques por vezes muito adversos, o bem-estar de Portugal aproximou-se da média da União Europeia. Ou seja, o bem-estar cresceu mais em Portugal do que na média da União Europeia. Partimos, no entanto, de um nível mais baixo.  Entre 1995 e 2022 o índice de bem-estar cresceu, em média, 2,7% por ano em Portugal, acima dos 2,4% na UE. 

Esta convergência de Portugal com a média da União Europeia beneficiou do progresso relativo em todas as componentes (consumo, tempo de lazer, esperança média de vida e menor desigualdade), com destaque para a melhoria mais significativa em Portugal da esperança de vida e para a redução mais acentuada da desigualdade em Portugal. Em particular, a esperança de vida em Portugal passou de 75,4 anos em 1995 para 81,7 anos em 2022, um aumento superior ao da UE e para um nível superior ao da UE (que cresceu 5 anos). Os progressos em termos de convergência no nível de vida para os nossos parceiros europeus são notáveis, mas, ainda assim, limitados.

Em contraste, não se observou uma aproximação do PIB per capita de Portugal aos valores da União Europeia no horizonte completo entre 1995 e 2022. Ao longo deste período, o PIB per capita aumentou, em média, 1,3% por ano em Portugal, o que compara com 1,4% na UE. Esta discordância de resultados, apesar de sinais de melhoria nos últimos anos também ao nível do PIB, relembra a importância de considerar medidas abrangentes de bem-estar para formar uma opinião sobre o nível de vida efetivo dos cidadãos e desenhar as políticas públicas eficazes.

No futuro, o aprofundamento do processo de convergência de Portugal na União Europeia exige que a melhoria relativa nas várias dimensões analisadas se mantenha. As perspetivas para o consumo estão naturalmente ligadas às do crescimento do produto, dependendo da manutenção de condições favoráveis à acumulação de fatores produtivos e incorporação de avanços tecnológicos, bem como da aposta contínua na melhoria das qualificações da população e do funcionamento dos mercados. Os progressos observados nestas áreas, a par da diversificação das fontes de crescimento económico, têm contribuído para um aumento mais sustentável dos rendimentos e do nível de vida dos portugueses. O aumento da esperança de vida e tempo de lazer, assim como a redução da desigualdade, devem também continuar a fazer parte do processo de decisão da política económica devido ao seu impacto na sustentabilidade do crescimento e no bem-estar no médio e longo-prazos. 

Estou certa de que a Ordem dos Economistas continuará a contribuir ativamente para a reflexão sobre estas questões nos próximos 25 anos. 

Obrigada». Leia na integra.

 

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Podemos estar enganados, mas esta intervenção dá pano para mangas e, desde logo, estamos com a Senhora Vice-Governadora aproveitando-se a boleia para, uma vez mais,  se pedir à ORDEM DOS ECONOMISTAS que acione REFLEXÕES, e dado o «core» deste blogue, em torno do «lazer». Bom, não será propriamente «lazer», ( e muito menos entretenimento amorfo), e por isso façamos um pequeno desvio  mais consentâneo com os nossos tempos: em torno da CULTURA E DAS ARTES no DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. E para já olhemos para a imagem de inicio: que força à volta da divisão do tempo!  E já gora que impacto teve a criação da Universidade de Lisboa no ensino e aprendizagem  «dos economistas» do ISEG? Temos de nos interrogar. Não olhar para estes acontecimentos de forma mecânica.
 
 
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Para terminar o Boletim Económico a que se refere a Doutora Clara Raposo:

 
E também uma sugestão sobre «lazer» com aquela marca de cosmopolitismo e de «charme de excelência» que era só seu  ...: que tal visitar livros do saudoso António Mega Ferreia? Por exemplo:
 
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 E para rematar mesmo, e sobre a UNIÃO EUROPEIA, manifestemos a nossa satisfação pela eleição de JOÃO OLIVEIRA porque mais do que ninguém vai ser capaz de levar ao PARLAMENTO EUROPEU que a QUALIDADE DE VIDA DAS PESSOAS é mesmo o determinante e que ela não é cabal sem a CULTURA E AS ARTES. Vamos cobrar, claro:
 
  «A questão política que se coloca é a de contrapor diversidade à homogeneização. (...) A de fazer desenvolver em cada indivíduo um criador, não um consumidor passivo e rotineiro de mercadorias culturais." João Oliveira encerrou a sessão afirmando que "na batalha pela democracia, a cultura é uma dimensão decisiva. Num mundo em que os indivíduos são cada vez mais empurrados para olharem para o seu próprio umbigo e numa base utilitarista, esta concepção da CDU, da cultura enquanto factor de realização individual socialmente considerado, como um espaço de construção de identidade que partilhamos com outros e que inventamos na relação com outros, não apenas no espaço das nossas fronteias mas na relação com outros povos, não apenas do continente europeu mas com povos de todo o mundo, é uma concepção contracorrente que a CDU afirma."».
 
E já depois de eleito:
 



sexta-feira, 7 de junho de 2024

OS ANOS PASSAM E A DGARTES LONGE DO NECESSÁRIO ... |também por isso a 9 de junho «usa o teu voto ou outros decidirão por ti» | A INTERVENÇÃO EUROPEIA E A AÇÃO NACIONAL NA ESFERA DA CULTURA E DAS ARTES NÃO ESTÃO DESLIGADAS

 

 

 

Veja aqui

Já o temos dito, e voltamos a reafirmá-lo, na campanha que hoje termina para as Eleições Europeias, a nosso ver, JOÃO OLIVEIRA foi quem tratou a CULTURA E AS ARTES de «corpo inteiro», como sempre fez ao longo da sua intervenção pública. A falta de verbas, os atrasos vindos da DGARTES que uma vez mais nos estão a chegar nos lembretes via internet (ver abaixo) levaram-nos a lembrar que sempre tiveram no CANDIDATO a resposta certa: é preciso UM SERVIÇO PÚBLICO DE CULTURA digno desse nome. E isso não é desligado destes pensamentos que João Oliveira tem expressado na campanha em curso:
  «A questão política que se coloca é a de contrapor diversidade à homogeneização. (...) A de fazer desenvolver em cada indivíduo um criador, não um consumidor passivo e rotineiro de mercadorias culturais." João Oliveira encerrou a sessão afirmando que "na batalha pela democracia, a cultura é uma dimensão decisiva. Num mundo em que os indivíduos são cada vez mais empurrados para olharem para o seu próprio umbigo e numa base utilitarista, esta concepção da CDU, da cultura enquanto factor de realização individual socialmente considerado, como um espaço de construção de identidade que partilhamos com outros e que inventamos na relação com outros, não apenas no espaço das nossas fronteias mas na relação com outros povos, não apenas do continente europeu mas com povos de todo o mundo, é uma concepção contracorrente que a CDU afirma."».
 
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Se ainda não deu por isso, aqui está, 
 uma vez mais capitulo da SAGA
 «CONCURSOS» da DGARTES:

 


pouco menos de um ano  medeia entre as duas notícias, 
mas podíamos ir mais longe ... O que não queremos ver?
 
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E pronto, em ambiente eleições,  recordemos,
por exemplo, mais este post  recente:
 



 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

A CAMINHO DAS ELEIÇÕES EUROPEIAS | a Cultura continua na campanha da CDU e João Oliveira a manter o nosso aplauso ...

 

(os destaques são nossos):

 

«"É tão importante nos dias de hoje falarmos de intercâmbio e de diálogo cultural não apenas para o enriquecimento e a valorização da língua e da cultura portuguesas, mas até para a valorização de valores democráticos que são absolutamente imprescindíveis, 50 anos depois do 25 de Abril" foi esta a ideia central de João Oliveira no final da visita de hoje à Feira do Livro do Lisboa.

Numa visita que contou com encontros com professor e ensaísta José Barata-Moura, com o editor Zeferino Coelho, da escritora e candidata Ana Margarida Carvalho ou as palavras de apoio de do poeta e professor António Carlos Cortez, o candidato da CDU acompanhado ainda de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, destacou ainda que "há várias dimensões da cultura, da expressão artística, que naturalmente exigem uma política para que isso seja concretizado e, em particular, uma política da língua, de valorização da língua e da literatura portuguesa, que naturalmente não deve ser feita numa perspectiva fechada, naquilo que é hoje a expressão da nossa língua e da nossa literatura, mas daquilo em que a nossa língua e a nossa literatura também se enriquecem no contacto com os outros, na incorporação que nós fazemos na nossa língua de tudo aquilo que resulta do intercâmbio e do diálogo cultural"». Veja mais.

 

terça-feira, 4 de junho de 2024

J.RENTES DE CARVALHO |«diz ter sempre presente nos seus livros "um pensamento triste de quem gostaria de ter um país melhor e vai morrer sem o ver"»

 

 

 um bom momento para lembrarmos
 o seu blogue TEMPO CONTADO:
 
  De lá:

«Discurso na CASA DA CULTURA - Mogadouro - 31/05/2024
 
Senhor Presidente, minhas senhoras, meus senhores,
As circunstâncias obrigam-me que comece por uma explicação, motivo  porque vou recuar oito décadas, até ao Primeiro de Dezembro de 1940.
Então com dez anos, e o melhor aluno da primária, escolheram-me para aprender de cor um longo poema patriótico.
Durante manhãs sem fim, a tremer com os berros e os puxões de orelhas que me dava o director, um sádico, esforcei-me e consegui decorá-lo. Mas quando me puseram diante do mar de gente, que enchia o salão nobre da Junta de Freguesia de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia, terra do meu nascimento, ainda fui capaz de articular meia dúzia de frases, mas logo em seguida fiquei mudo, e por muito que me esforçasse, não saía palavra.
Riu-se a assistência, acudiu-me a minha carinhosa professora, que com  beijinhos e dando a mão me tirou dali, pondo fim ao martírio.
Infelizmente, o trauma ficou. Discurso não é comigo, mas a modos de vingança, o Demónio condenou-me a uma carreira de trinta anos de  ensino na Universidade de Amesterdão, e muitos mais a participar num sem-conta de conferências, entrevistas,  programas de televisão e rádio.
Acontece isso, felizmente, numa que não é a minha língua-mãe, mas aquela em que há uns setenta anos me exprimo, comunico e funciono, e a qual se tem mostrado imune a traumas, talvez por nessas ocasiões se tornar outra a minha identidade .
Neste momento, porém, retornando física e mentalmente à língua portuguesa, e tendo presente o episódio que referi, é bem possível que dum instante para o outro a minha dicção se torne pior , e desde já peço desculpa pelo incómodo.
Numa ocasião solene como esta, mas também porque a oportunidade é única, sinto a obrigação de, no íntimo, recordar algumas das pessoas que, com generosidade e de várias maneiras, contribuiram para que a minha vida tomasse um rumo que nada fazia prever, nem me  atreveria a sonhar.
Abriram-me portas de que ignorava a existência, tampouco poderia imaginar a importância que tinham. Mostraram-me caminhos que julgava intransitáveis para as minhas capacidades. Foram anjos-da-guarda à borda de precipícios. Deram-me a mão, todas as vezes que dela precisei. E ensinaram-me a não ter pressa no julgamento do semelhante,  a atentar como são fluídas as noções do Bem e do Mal.
Já todos faleceram, mas continua viva a memória que deles tenho, e o sentimento de gratidão que me merecem.
Para meu prejuizo, mas de longe a longe também para proveito, tenho tido sobra de situações desconcertantes. Felizmente, muitas têm vindo com uma favorável qualidade: a de terem esperado, e só me surpreenderem numa altura em que os muitos anos, e a maneira como encaro o mundo, de certo modo põem travão ao meu comportamento, tornando-me assim mais capaz de seguir as regras, aceitar os costumes e, cortêsmente, participar no convívio social.
Segundo as regras desse convívio, do homenageado espera-se que se mostre feliz, bem humorado, respeite o bom uso, e no seu discurso utilize as frases tradicionais de surpresa e agradecimento, a honra que é ver o seu nome escolhido para o de um estabelecimento público, tanto mais tratando-se, como agora, de uma Casa da Cultura.
Sinto-me de facto grato e honrado, mas permitam que, de certo modo, ache a homenagem excessiva, pois para quem há quase oito décadas vive longe, e em terra estranha, não é coisa pouca a surpresa de, praticamente de um dia para o outro, ver em maiúsculas o seu nome lá no alto e, em estátua, confrontar quem passa.
Sendo esse o caso, estou certo que compreenderão a minha atitude, a qual é, em simultâneo, de gratidão e embaraço, pois homenagens assim cabem a grandes personalidades, enquanto que eu me sinto inclinado a parafrasear Eça de Queirós, quando dizia: “Sou um pobre homem da Póvoa de Varzim”.
Guardadas as devidas distâncias, para com aquele que foi o mais importante dos meus mestres, posso sinceramente dizer também, que sou, e me sinto, “um pobre homem de Estevais de Mogadouro”.
Espero, todavia, que sejam benévolos para comigo, uma vez que, de maneira a conseguir alguma paz de espírito com tão surpreendente, e desmesurada homenagem, abuso da oportunidade para chamar a atenção da Câmara para a existência, na nossa aldeia, de um cemitério secular, único no testemunho que dá, e provavelmente único no país. E ainda a nossa fonte de chafurdo, também ela secular e única, mas de tal modo arruinada que é grande o risco de que não tarde a desaparecer.
Não levem a mal o eu aproveitar a ocasião, mas peço que lhes acudam, para que não desapareçam esses humildes, mas preciosos testemunhos, pois além de serem únicos, mantém-se com eles a memória do que foi a vida de sofrimento, carência e humildade dos nossos antepassados.
Terminando aqui, seria deixá-los com uma impressão melancólica de ruinas e envelhecimento, enquanto que de facto, e felizmente, a nossa velha aldeia está a renascer.
Encontra-se já numa situação em que os visitantes de fim-de-semana são por vezes às centenas, atraídos pela paisagem e o espectáculo das dezenas de milhar de amendoeiras.
E dentro em pouco ficará terminada a instalação do agroturismo, cuja qualidade e conforto irá surpreender, e de várias maneiras, será também razão para pôr Estevais de Mogadouro naquele mapa que verdadeiramente conta, o que faz despertar o interesse e atrai visitantes.
De maneira directa e indirecta, deve-se muito dessas melhorias à generosidade de D. Palmira Sanches de Morais Pimentel, à dedicação de sua irmã D. Urbana Noronha Alves, mas também, e sobretudo, ao excepcional dinamismo, capacidade de realização e empreendimento de Jorge Noronha Alves, que quase desde o berço tenho por afilhado honorário.
Assim, pois, embora sejam muitas as sombras, há também motivos para esperança. Evidentemente, mais para aqueles que têm um futuro, e calculam em anos, do que para mim, que tenho um passado, e conto em dias.
Agradeço o terem-me ouvido».