Excertos: «( ...)» Há sempre uma leitura de esquerda bem distinta da de direita o que a direita procura sempre subverter ou simplesmente alisar. Na actualidade as artes e letras contemporâneas escapam a juízos críticos, subtraem-se a qualquer relação com as comunidades porque se vive o que Georges Steiner define como um «casino cósmico» em que há « uma cultura de impacto máximo e obsolescência imediata». (3) É o paradigma dos mercados que só conhecem a hierarquia cultural do que é vendável, numa sequência de episódios desconexos, inconsequentes, tendo por único horizonte um valor de diversão, a fogueira inquisitorial em que ardem as Seis Propostas para o Próximo Milénio de Italo Calvino (4). A resultante, como Terry Eagleton consigna, é que, actualmente, tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas, registando que não há hoje qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico que questione os fundamentos do modo de vida ocidental, marcando um contraste significativo com séculos anteriores. Afirma que esse estado de sítio é decorrente do « humanismo liberal que é, ao mesmo tempo, altamente ineficaz e a melhor ideologia que a atual sociedade burguesa consegue ter» (5) o que já tinha feito Steiner soar sirenes apocalípticas «penso que o eclipse das humanidades , no seu sentido e presença primeiros, implica, na cultura e na sociedade de hoje, o eclipse da humanidade» (6) Um estado de sítio que se aplica hoje à cultura, às artes e às letras, em que nos referidos séculos anteriores tinha muitas e brilhantes excepções, bem mais comprovadas quando as vanguardas artísticas colaboraram com as vanguardas políticas, em que os trabalhos e pesquisas estéticas se identificavam com os empreendimentos revolucionários. Com o declínio das vanguardas artísticas a situação cultural iniciou uma genealogia de perversão até à inquietante situação actual em que os artistas parecem não responder a nada, indiferentes à brutal desumanidade das sociedades embora episodicamente, nas variantes mais radicais, simulem insubmissões contra os poderes públicos enquanto se fazem subvencionar com largueza por eles. O que não tem paralelo com anos anteriores em que a distanciação entre a vida social e política e as artes, até foi desmentida por escritores politicamente conservadores como Vitor Hugo (7) e Balzac (8) ou assumidamente fascistas como Céline (9), Ezra Pound (10), Curzio Malaparte (11) em que o que procuram colocar à porta lhes entra desaforadamente pelas janelas, acabando por retratar, de forma directa ou oblíqua, as lutas de classes e a decadência da sociedade.Derivas das Actividades Culturais
Formalismos e Divertimentos
Na actualidade uma parte considerável da actividade cultural não tem outra função social que não seja distrair o público, desviá-lo da situação política, divertindo-o enquanto em paralelo nas artes e letras se assiste à exasperação dos formalismos que culminam na defesa da arte pela arte, o que «termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma» (12). Arte pela arte que Walter Benjamin denuncia: « Fiat ars- pereat mundus, diz o fascismo que, como confessou Marinetti, espera da guerra a satisfação artística transformada pela técnica. Trata-se visivelmente da consumação da arte pela arte. A humanidade. que antigamente. com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objecto de contemplação para si própria. A alienação de si própria atingiu o grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. É assim a estetização da política praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com a politização da arte» (13). O risco é essa politização da arte atolar-se em vulgatas marxianas que são o outro lado do espelho da inventividade teórica de Marx e Engels, com obras medíocres para que Engels, muito antes das perversões idanovistas, tinha advertido no Anti-Durhing : «assim quem parte, neste domínio, à caça de verdades definitivas, em última análise, verdades autênticas, absolutamente imutáveis, poucos resultados obterá além de banalidades e de lugares-comuns da pior espécie».(14) (...)».
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