Os actores com quem trabalhou confirmam-no. Teresa Gafeira lembra a sua “atenção ao detalhe e ao intérprete”, Cláudio da Silva fala no “brio” com que fazia tudo, por mais insignificante que fosse a tarefa, Sandra Hung elogia-lhe a precisão de “relojoeiro” ao lidar com a palavra.
É precisamente como “pedagogo atento” e “encenador extraordinário”, que a actriz Teresa Gafeira o recorda. “Com a morte do Rogério perco um amigo e o teatro português perde um mestre”, diz ao PÚBLICO. “‘Mestre’ é mesmo a palavra certa porque ele, além de um grande encenador, de um homem extraordinário, era alguém que, pela sua maneira de fazer teatro e estética muito próprias, de grande sensibilidade para com o texto e para com os actores, tinha sempre qualquer coisa para ensinar.”
Gafeira foi dirigida pelo encenador em inúmeras ocasiões e reconhece que, para muitos intérpretes, sobretudo os que com ele trabalhavam pela primeira vez, nem sempre era fácil entender o que Rogério de Carvalho pretendia de um gesto ou de uma cena.
Ele, que costumava dizer que não fazia dramaturgia, não chegava ao “seu” espectáculo a partir da análise do texto, como faz a maioria dos encenadores, garante a actriz: “O Rogério, que era um enorme director de actores, de um rigor extremo, chegava lá através de uma imensa noção dos tempos e dos ritmos do espectáculo. Construía partituras para o som e para o movimento que os actores tinham de seguir. As encenações dele tinham uma estrutura para o corpo, para a voz, que era muito intuitiva.” Uma intuição que talvez lhe viesse das suas raízes africanas, defende Teresa Gafeira: “Sendo um homem cultíssimo, profundo conhecedor dos textos, dos autores, ele deixava-se levar por esse lado que é, de certa maneira, indizível, inexplicável, e envolvia-nos. Eu, que não gosto nada de ensaios, sentia um enorme prazer ao ensaiar com o Rogério.”
Sandra Hung, actriz e membro da associação Artes e Engenhos, com a qual Rogério de Carvalho trabalhava com regularidade nos últimos anos, chegando a levar a um festival de teatro lusófono do Brasil a peça Migrações – Título Provisório, em 2018, está, como Teresa Gafeira, entre os seus amigos e entre os actores que falam neste “prazer”, neste “privilégio”, de partilhar o teatro — texto e palco — com o encenador.
...................................
“Aprendi muitas coisas com ele, mas, sobretudo, a partir para uma peça com vontade de a descobrir”, diz o actor. “O Rogério tinha uma vontade de descoberta, de conhecimento, contínua, daí a exigência com que trabalhava, o brio com que fazia tudo.” «(...)».







