À sua Santiago, Manuel da Fonseca apenas retirou a proximidade do mar. Assim, Cerromaior retrata-nos uma cidade cercada pelo campo e a realidade alentejana dos anos trinta e quarenta. São focadas todas as classes sociais: a família de latifundiários que cidade; o proletariado rural, objecto da exploração económica; a GNR, aliada dos poderosos.
Este romance foi adaptado ao cinema por Luís Filipe Rocha em 1980». Saiba mais.
A par do olhar para o território sugerido pelo livro, à literatura o grupo foi ainda buscar o movimento circular da narrativa, a ideia do canto e da música, e a recolha de frases de Manuel da Fonseca que Xullaji usou para compor uma canção que interpretam em palco. Diz o músico: “Fui recolhendo algumas frases deste livro, que é lindo, e que nos foram servindo para perceber o que é este Alentejo de agora — porque na Margem Sul também vemos Alentejo, de onde muitas pessoas vieram. Esse Alentejo que, para mim, hoje pode vir de Campo Maior, do Bangladesh, da Praia, de Dakar, do Mindelo, de Bissau. São estas pessoas que chegam para trabalhar, para servir, e que são encurraladas neste sítio, as pessoas que têm de fazer o movimento pendular todos os dias e depois, assim que se metem no barco para cá, são olhadas com desdém profundo. Isso tem um paralelo muito grande com o livro.”
Xullaji recupera uma frase de um dos primos Runa, administradores das terras em Cerromaior, quando este diz que “só existem dois tipos de pessoas: os que mandam e os que obedecem”. Ao aplicarem essa máxima à Margem Sul de hoje, diz o músico que pensaram este espaço como “a cidade dos que obedecem”, enquanto do outro lado do Tejo se ergue “a cidade dos que mandam, com várias escalas de poder”. Se os paralelos estabelecidos entre o universo romanesco de Manuel da Fonseca e a realidade que rodeia este colectivo de artistas hoje lhes são evidentes, Cláudia Dias não deixa de notar que, embora reconhecendo “enormes diferenças” entre o presente e o país de 1943, quando o livro foi escrito, a proximidade não deixa de existir, uma vez que “a desigualdade persiste, tem uma nova roupagem, mas continua cá”. “Tivemos uma janela bonita com o 25 de Abril, mas essa janela está de novo a fechar-se e a desigualdade está a atingir outra vez níveis muito gritantes.”
A criadora faz ainda questão de notar que este não é um espectáculo feito por “artistas dentro de uma bolha a olhar de cima para a Margem Sul”, como se fossem “cientistas a pôr celulazinhas no microscópio” para estudarem fenómenos que os ultrapassam. “Nós também somos as pessoas que vivem essas dificuldades, a questão do capitalismo, do racismo, da violência, do preconceito. (...)».
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