terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

«ÉVORA 2027» | Candidatura de Évora a Capital da Cultura lança ciclo de documentários | INICIATIVA #SENDO









«A iniciativa designa-se #SENDO e arranca às 19:00, podendo ser acompanhada através das páginas de Évora 2027 nas redes sociais Facebook e Instagram e no YouTube, anunciou hoje a Equipa de Missão da candidatura.O primeiro episódio é "protagonizado" por Zélia Parreira, diretora da mais antiga biblioteca pública portuguesa, a Biblioteca Pública de Évora. Segundo os organizadores, o projeto #SENDO é "um ciclo de pequenos documentários que dá a conhecer várias histórias que representam o trabalho desenvolvido na comunidade, seja em instituições (públicas ou privadas), associações, fundações, cooperativas ou outras formas coletivas" de organização.As histórias retratadas vão "da inovação e investigação, documentação e arquivo, passando pela arte contemporânea, arte popular, património, recursos naturais, arqueologia e arquitetura". (...)». Continue a ler.








segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

SE AINDA NÃO LEU NÃO PODE PERDER | ANTÓNIO GUERREIRO |«A mentira no pequeno ecrã»

 

«A quem se dispõe a ver e ouvir os principais noticiários televisivos, à noite, pelas 20h, em qualquer um dos principais canais (RTP1 — salva-se a RTP2 — SIC e TVI) é-lhe infligida uma dose superlativa e alongada de notícias e reportagens sobre o Covid-19 que são exactamente iguais às notícias e reportagens do dia anterior, quase iguais às da semana anterior e horizontalmente encadeadas, sem picos nem descontinuidades, nas do mês anterior. A única coisa que difere é o teor de dramatismo, a acentuação, a mímica dos jornalistas (categoria na qual o vencedor absoluto é o clown José Rodrigues dos Santos). Todos os dias, o empenho destes jornalistas em nos fazer imergir na peça que eles interpretam em vários andamentos (perigo, desastre, tragédia apocalipse) deixa-nos obtusos, anestesiados, irritados ou aterrorizados, conforme o nosso grau de permeabilidade e de “literacia mediática”, como se diz hoje. Sem negar a gravidade da pandemia, devemos perceber que quanto mais este jornalismo obeso e com a cegueira da enumeração se aplica a mostrar menos dá a ver, quanto mais imagens nos fornece mais visão nos confisca, quanto mais nos quer convencer de que toca a realidade e a verdade mais produz ficção e mentira. Este jornalismo da mesmice — dos mesmos factos, das mesmas pessoas e do mesmo tom — que encena pela redundância uma ilusão de totalidade (e que, por isso, precisa sempre de muito tempo, é uma espécie de roman-fleuve diário) coloca-nos perante um enigma: os jornalistas fazem-no por genuína convicção, por convicção induzida através de um mecanismo coercivo, ou sem nenhuma convicção, mas enquanto funcionários pragmáticos? Ficaríamos a saber alguma coisa de útil e mais aprofundada se eles se dispusessem a falar da sua profissão e das circunstâncias em que trabalham sem ser para cantar hinos e celebrar os sucessos da instituição que lhes dá emprego. John Maynard Keynes disse uma vez dos seus pares: “Os economistas estão ao volante da nossa sociedade, mas deviam estar no banco de trás”. É justo e razoável achar que Keynes tinha razão em 1946, quando fez essa afirmação, e continua a tê-la hoje. Vão para ele os créditos se dissermos mais ou menos o mesmo de quem vai ao volante deste jornalismo que nos é servido diariamente na televisão (não falo agora dos jornais porque aí, apesar de tudo, a paisagem é menos monótona e mais plural). Atentemos no seguinte: o canal de televisão que à segunda-feira, num programa de fact-checking chamado Polígrafo, traça “uma linha em nome dos factos”, dizendo-nos “onde acaba a verdade e começa a mentira”, é o mesmo que levou uma hora e meia a mentir-nos no Jornal da Noite que antecede esse programa. Não mente por dizer mentiras ou falsear imagens, não é a actual questão das fake news e da pós-verdade que aqui surge como pertinente ou a solicitar análise. Mente pelo encadeamento de palavras e de imagens, pela poluição discursiva e visual que produz, pelo tom adoptado (a dimensão prosódica do discurso, digamos assim), arrastando-nos para uma das regiões mais poluídas do planeta. Ai, nem palavras nem imagens são zonas a defender. Cumpre-se um formulário que encontrou uma representação eloquente no mais repetido estribilho dos últimos meses: “Hoje há X mortes a lamentar”. Temos à nossa disposição outras maneiras de dizer, de fazer, de dar a ver (mesmo na televisão em Portugal: é preciso dizer que nem tudo se equivale, não há apenas os jornais televisivos das 20h, nem todos praticam o mesmo tipo de jornalismo) que, sem a pretensão de um polígrafo, nos facultam elementos suficientes para percebermos onde está a mentira. Há uma cena do filme Palombella Rossa em que o protagonista, um deputado comunista interpretado pelo próprio realizador, Nanni Moretti, entrevistado por uma jornalista, começa a fazer um relato de lutas ecológicas e políticas travadas por comunidades indígenas do Peru. A entrevistadora, achando o assunto pouco interessante, interrompe-o e faz-lhe perguntas sobre o seu divórcio e o seu estilo de vida. Atingindo o extremo da impaciência, o entrevistado dá uma bofetada à jornalista e grita-lhe: “Ma come parla? Come parla?”, como quem diz: “Como é possível falar dessa maneira? Como posso eu continuar a falar consigo?”». Ípsilon - 5FEV2021.

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Está disponível na «A Estátua de Sal»: visite aqui

 

 

VÍTOR GASPAR|«É garantir que existem políticas que permitam a inclusão de todos»


 

 Semanário Expresso|5 FEV 2021| Entrevista de Maria João Avilez

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Quem diria!, ver apostar nas POLÍTICAS PÚBLICAS de maneira tão decisiva. Mas  o passado mostra que quem delas precisa tem de lutar por elas. É certo que nos tempos que vivemos as desigualdades têm impactos generalizados - dos mais ricos aos miseráveis -  e então vamos lá  trabalhar para que os pobres não sejam tão pobres, e para que os trabalhadores possam continuar a trabalhar em segurança e não disseminem as doenças...
Mas, é claro, há que valorizar  a resposta do antigo Ministro das Finanças:«garantir que existem políticas que permitam a inclusão de todos». Já temos as palavras, FALTAM AS POLÍTICAS. E não pode ser a passo de caracol. No Elitário Para Todos assumimos  que nos preocupamos em especial com o SERVIÇO PÚBLICO na esfera da Cultura e das Artes. E o que há a recuperar!, com sentido de urgência, mas onde está ela? Há que dar conteúdo ao «que ninguém fique para trás» ..., que tanto enche a boca, bem vistas as coisas, de todos nós.  

 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

WOODY ALLEN|«A Propósito de Nada»|MAIS DO QUE UMA AUTOBIOGRAFIA ...

 

 

O livro até pode ser visto como uma acerto de contas com a justiça, como quem «não quer a coisa», no seguimento do processo  em que se viu envolvido quando acusado de ter molestado uma filha, processo de que saiu totalmente ilibado. Um processo kafkiano. Mas é com arte e genialidade, como que ao correr da pena, como parte de uma vida cheia, que ali é demonstrado. E para quem gosta da obra de Woody Allen talvez saia a gostar ainda  mais e a entender melhor o que nos deu a ver. Em especial, para quem tem actividade no sector da cultura e das artes é uma pérola, mostra-nos o que, afinal, sempre esteve lá, põe o dedo na ferida, de maneira natural, como nos seus filmes. Passagens, «ao acaso»:

 «(Bem, queria fazê-lo porque, alguns anos antes tinha visto Tio Vânia adaptado ao cinema por Andrei Konchalovsky, e achei que era uma obra de arte tão bela, que queria fazer algo assim. O problema é que nunca acertamos no intangível, pois embora tendo feito tudo o que Tchékhov poderia ter feito, deixei de fora um ingrediente essencial inquantificável - a genialidade. Tchékhov infundiu automaticamente o seu trabalho com genialidade algo que não se pode aprender nem controlar, e que, portanto, ainda que alguém como eu faça todas as coisas certas enquanto dramaturgo, o molho não espessa. Ainda assim, dado que retiro o maior prazer da realização de um filme, foi muito divertido fazer de conta que era um dramaturgo russo». (pg. 263/4).

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«Mas, pelo menos, os artistas, cheios de inseguranças, sabem que nada sabem. A maioria dos tipos do dinheiro não sabe nada, não têm instinto, mas imaginam-se muitas vezes como gente que sabe, que sabe mais do que o artista. Violentam e estropiam a obra em curso, debatendo-se por agradar por quaisquer meios necessários, e o resultado é, frequentemente, dez vezes pior do que se tivessem deixado o artista em paz. Ele que se afunde ou que nade sózinho. Só de muito em muito tempo, por mero acaso, que mais tarde será apelidado de sabedoria, faz o executivo uma melhor escolha do que o artista, conferindo ao projeto um sucesso lucrativo. Isto é raro, e o mais frequente é os projetos serem arruinados pela interferência dos «engravatados».

Estou a falar, aqui, sobre o cinema comercial. Se o cineasta é um artista, um Bergman, um Fellini, por exemplo, contributos de qualquer fonte, com exceção da alma do autor, estão completamente fora de questão; até os engravatados parecem senti-lo e recuam. Por imerecido que tenha sido, agi sempre como se estivesse na categoria dos cineastas artísticos e, embora fosse uma falsa comparação, as minhas exigências descomprometidas, mereceram-me um respeito que mais se adequavam aos verdadeiros mestres. Ainda assim, insisti, quem quisesse investir nos meus filmes podia enfiar o dinheiro num saco de papel pardo, ia-se embora e eu aparecia com um filme terminado, que, depois, o investidor tinha o direito de distribuir como muito bem entendesse».  (pg.391/2).

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Olhando para o que acabou de se escrever, ocorreu-nos: no nosso País, os sistemas vigentes de financiamento às artes através do Ministério da Cultura como olharão para «relatos» destes  ? Em particular, ouvir o que alguns membros dos júris diriam era capaz de «explicar» muito do que temos.