«(...)De há muito que fui perdendo o interesse pela política portuguesa — que foi durante décadas, e ainda é, uma parte determinante da minha actividade profissional. Não é um distanciamento diletante e, menos ainda, cívico, mas apenas um reflexo do desinteresse crescente com que sigo o que vai acontecendo: os debates, os congressos, os comícios, as eleições e as campanhas eleitorais, as agendas e programas políticos, os eleitos e os eleitores, os governantes e os governados. O poder e o povo. E depois, por cima de tudo isso, o absoluto alheamento e ignorância que todos — o poder, o povo e a imprensa — votam ao que se passa no mundo. Nós, os descendentes de outros portugueses cuja curiosidade pelo desconhecido, cuja coragem de fazer os mapas por descobrir, os levaram à sete partidas do mundo, estamos hoje remetidos à curiosidade das notícias sempre mais importantes do burgo e às conversas de taberna das redes sociais, por onde desfila toda a mesquinhez e inveja de que a raça humana é capaz. Num dia abrimos os telejornais com a notícia do novo treinador do Sporting, no outro dia chamam-lhe “génio” porque ele mudou o “sistema” e ganhou um jogo ao Benfica, e às jogadoras da Selecção de Futebol feminina chamam-lhes “Navegadoras”, como se alguma vez tivessem empunhado um sextante ou enfrentado uma borrasca atlântica à vela. Diz-me quais são as tuas notícias, dir-te-ei o teu estado de literacia; diz-me quem são os teus heróis, dir-te-ei de que massa é feita a tua gente. E se me disseres que muitos dos teus melhores estão fora ou estão voluntariamente afastados do governo da cidade, por invejas, por intrigas, por maledicência, por guerras de capelinhas, dir-te-ei que futuro te espera.
Um grande livro tem a extraordinária faculdade de nos mentir, fazendo-nos sonhar e levando-nos para longe de horizontes fechados. Não me admira que os portugueses não leiam: o real, este real a que acedem, serve-lhes perfeitamente como plataforma de intervenção. Uma das mais trágicas consequências desta cultura das redes sociais é a transformação de cada um dos seus viciados num herói aos seus próprios olhos, um sábio e um justiceiro, alguém que não precisa de aprender, nem de ver, nem de ouvir, nem de ser confrontado com outras verdades. Alguém que julga saber tudo e, tudo sabendo, nem sequer precisa de sonhar. Nem o real o desafia, nem o sonho o acorda: apenas a ilusão em que vive o transporta. Um dos mais tristes exercícios a que a política nos obriga a assistir é a via-sacra de humilhação a que os políticos são obrigados a expor-se perante o bom povo, jurando sempre que entendem as razões deste e que prometem fazer diferente dos outros. Porque o povo apenas quer o bem e os políticos querem sempre o mal, tão simples quanto isto. Eu sei que hoje esta é uma regra planetária: o extermínio democrático das elites foi preenchido pela ética fria do algoritmo e as ideologias são conversas de salão. Talvez a única excepção sejam paradoxalmente os Estados Unidos, onde um homem que é a verdadeira essência do mal transformou em ideologia de sucesso um apelo aos instintos mais baixos do bom povo, conseguindo irmanar na mesma cruzada bestial ricos e pobres, pretos e brancos, cultos e ignorantes. (...)»
Agora indo ao concreto, convém ter-se ideia da realidade da Administração que está em causa à volta do «caso». Assim, olhemos para documento que nos diz donde se parte:
De lá, como em particular nos interessa a CULTURA cujo Ministério já não tinha SECRETARIA-GERAL, atente-se nisto:
«A Presidência do Conselho de Ministros assegura o apoio aos serviços dependentes do:
• Ministro da Presidência;
• Ministro Adjunto e da Coesão Territorial;
• Ministro dos Assuntos Parlamentares;
• Ministro das Infraestruturas e Habitação;
• Ministra da Juventude e Modernização;
• Ministra da Cultura».
- Afinal, do currículo de quem desistiu, do novo dirigente que aceitou ser Secretário-geral, do que se sabe sobre os Secretários-gerais adjuntos, alguém nos sabe dizer quais são os PERFIS?
- E alguém sabe qual vai ser a ORGÂNICA da SECRETARIA-GERAL DO GOVERNO? E isto não devia ser prévio à nomeação dos DIRIGENTES? E para este particular parece que se aplica «CONCURSOS PARA QUE VOS QUERO».
«A companhia Amarelo Silvestre, sediada em Canas de Senhorim, iniciou em 2020 um projecto que manterá por dez anos intitulado DIÁRIO DE UMA REPÚBLICA. O objectivo consiste em estrear, a cada ano ímpar, uma peça de teatro baseada em fotografias de Augusto Brázio e Nelson D’Aires, tomando o pulso ao País. A primeira criação, dedicada à Justiça, estreou em 2021; e a segunda, de 2023, versou sobre o Trabalho. Esta exposição mostra algumas das fotos dessas duas primeiras etapas, e lança o mote para a terceira: no início do ano Augusto Brázio fará uma residência fotográfica em Almada que servirá de base para uma peça dedicada ao tema da Habitação, a apresentar na próxima edição do Festival de Almada». Saiba mais.
E
«O Amante é, em larga medida, um romance autobiográfico.
A narradora vive desde a infância com a mãe e os irmãos na Indochina francesa. Tem quinze anos quando, ao atravessar um afluente do Mékong, conhece um chinês rico e experimentado nas lides do amor, por quem se apaixona. Tudo parece separá-los, a idade, a riqueza e os preconceitos, que se opõem a uma relação amorosa entre um asiático e uma europeia.
A narrativa fala das incertezas de uma adolescente que tem a sua primeira experiência do amor físico, se lança na travessia dos sentidos, e procura a libertação do domínio da mãe e da asfixiante relação que esta tem com o filho mais velho.
Esta paixão adolescente decorre num cenário exótico, perverso, num fundo de lentidão e meandros asiáticos.
Quase tudo parece esbatido pela memória, a adolescente de rosto infantil e precoce com um chapéu de homem e sapatos de baile, ou a mãe, que luta contra a ruína familiar, ou mesmo a escandalizada comunidade branca. Nítido, só o homem jovem numa barcaça, junto da limusina e do motorista. Ele será a personagem nítida, com uma posição clara, a do amante que dá título ao livro.
Publicado em 1984, O Amante recebeu o Prémio Goncourt e o Prémio Ritz Paris Hemingway, para o melhor romance publicado em inglês, em 1986. Saiba mais.
Que “fraca humanidade”, como povo, teríamos, que memória colectiva nos fixaria a este chão solar e madrasto, que identidade, que língua falaríamos sem os poetas que cantaram e cantam os nossos gestos mais fecundos e justos, as andanças pelo mundo em busca de pão menos suado; as pelejas pelas rotas transoceânicas, orientes, oceanias, áfricas, granjeando escassa fortuna e muito sangue derramado; as lutas pela independência desde a fundação até 1383, que Fernão Lopes descreveu na Crónica de D. João I, modelar escultor da primeva língua, passando pelo lirismo arrebatado de Bernardim Ribeiro, pelas alucinadas viagens de Fernão Mendes Pinto; pelo supra-Camões que Pessoa quis ser, pela denúncia da barbárie fascista que se inscreve na pena corajosa dos nossos poeta neorrealistas, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, de Joaquim Namorado a Armindo Rodrigues; o 25 de Abril de Ary dos Santos, de Manuel Gusmão, de Sophia, de Jorge de Sena. António Borges Coelho dá-nos a resposta nesta abordagem criteriosa e no diálogo que ao longo do ensaio estabelece com as mais impressivas passagens da épica camoniana, a começar nesse longo e modelar poema, que nos interroga: «Quem pode ser no mundo tão quieto», construído em oitavas, inscrevendo no poema a feição de modernidade discursiva, a agudeza singular, as virtualidades do idioma, na forma como Camões o utiliza para denunciar o alheamento das classes dominantes perante o desconcerto do mundo: Quem pode ser no mundo tão quieto,/ou quem terá tão livre o pensamento,/quem tão experimentado e tão discreto,/tão fora, enfim, de humano entendimento/que, ou com público efeito, ou com secreto,/lhe não revolva e espante o sentimento,/deixando-lhe o juízo quase incerto,/ver e notar do mundo o desconcerto?
Borges Coelho faz uma leitura nova e actuante de Os Lusíadas, investindo e sobrelevando as estrofes socialmente comprometidas da nossa obra maior e universal. É o Camões humano, defensor do povo miúdo, que tinha esperança que o país inquisidor, beato e miserável mudasse e com ele as vontades, Tomando sempre novas qualidades. Um país de todos e possível, que não apenas de um punhado de nobres, senhores de latifúndios feudais, vivendo de prebendas da Corte e da exploração escrava, à tripa forra, submetendo sem cuidados o povo miúdo à sua ambição de poder, à ganância e à vã cobiça.
Camões, mesmo acossado pela Inquisição, sobrelevando os seus métodos com subtil engenho e arte, não deixou de criticar, embora de forma velada, alguns dos que privavam na Corte de D. Sebastião: Vê que esses que frequentam os reais/Paços, por verdadeira e sã doutrina/Vendem adulação, que mal consente/Mondar-se o novo trigo florescente, e não deixou também, nesse incómodo Canto IX, que muito boa gente ainda olha de soslaio, de denunciar, nas estrofes 27 e 28, a relação cínica entre nobreza e povo, pendendo as leis sempre para o Rei, deixando o povo à míngua e à mercê de todos os ultrajes: Vê que aqueles que devem à pobreza/Amor divino, e ao povo caridade,/Amam somente mandos e riqueza,/Simulando justiça e integridade;/Da feia tirania e de aspereza/Fazem direito e vã severidade;/Leis em favor do Rei se estabelecem,/As em favor do povo só perecem.
No Texto Crítico, que acompanha cada período em análise de Os Lusíadas, escreve António Borges Coelho: «O verso camoniano louva e fustiga. Louva a coragem, os chefes que prevêem os perigos, os expertos peitos, os que sobem ao mando quase forçados. E fustiga: reis, nobres ineptos, filhos-família, padres ambiciosos e tirânicos.»
Que falta ainda nos faz este vigor, esta superior forma de afirmação da língua e da justiça, a clareza e a coragem deste verbo. Para os que questionam a importância de ler hoje Os Lusíadas, a interpretação crítica que dele nos dá Borges Coelho é adequada resposta».