domingo, 15 de dezembro de 2019

A Propósito de Prémio Pessoa: Luís Miguel Cintra



Tirado do Semanário Expresso

Já que estamos em atmosfera «Prémio Pessoa» lembremos que Luís Miguel Cintra o foi em 2005. Entretanto, o Teatro da Cornucópia fechou, mas vem mesmo a calhar temos CANJA DE GALINHA (COM MIUDOS), um Projeto de Luís Miguel Cintra, que pode ser visto  no Museu da Marioneta. Veja aqui.E esta entrevista na Agenda Cultural Lisboa. Não, não temos a Cristina Reis. Um excerto da entrevista:  «(...)Já voltou à sua antiga “casa”, o Teatro do Bairro Alto desde a reabertura?Não sei se lá irei tão depressa.Razões sentimentais? Não, não. É desconcerto mesmo. Passaram-se coisas que deixaram uma ferida muito grande e que prefiro nem falar. Há um lado absurdo e de injustiça, não para connosco, mas, sublinho, para com o público. Era uma casa de espetáculos única, a última onde ainda se faziam cenários, guarda-roupa… De um momento para o outro, tudo se desmantelou e, hoje, tem um objetivo oposto ao nosso. Se começo a falar nisso fico mal disposto…… Não quero que perca o seu bom humor. Mudemos de assunto… Ainda vai regularmente ao teatro? (...)»

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 E em 2012 na sua qualidade de Prémio Pessoa, Luís Miguel Cintra participou  na Conferência que Portugal Queremos daqui a 25 anos. E na altura sobre a iniciativa de um dos posts do Elitário Para Todos de seguida - já que o momento, a nosso ver,  o reclama:

«25 ANOS DO PRÉMIO PESSOA: QUE PORTUGAL QUEREMOS DAQUI A 25 ANOS?



«Voltemos então, como prometido no post anterior,  à Conferência Que Portugal Queremos daqui a 25 anos? Com o texto da intervenção de Luís Miguel Cintra e com o video sobre o Painel em que participou, que teve mais os seguintes intervenientes: José Gomes Canotilho, Mário Cláudio, Manuel Sobrinho Simões, Irene Pimentel.  O moderador foi Nicolau Santos. De seguida,  apenas alguns excertos, como que chamada de atenção para a apresentação completa e para todo o debate:
«Que Portugal queremos daqui a 25 anos?
É desconcertante para mim o tema deste debate. “Que Portugal queremos daqui a 25 anos?.” A pergunta, na sua aparente ingenuidade, quando lhe tentamos responder, levanta a cada palavra tanta questão complexa que com certeza garantirá uma animada conversa, mas não pode chegar, nem com certeza aspira, a nenhuma útil conclusão.
Não me passa pela cabeça que esta primeira pessoa do plural possa ser o conjunto dos portugueses. Não creio haver neste momento, nem nos tempos de que me lembro, qualquer sentimento de unidade nacional que permita reconhecermo-nos num mesmo desejo comum para o país em que vivemos e onde a maioria de nós terá nascido e que se chama Portugal. E tenho muitas dúvidas de que o desejo de cada um dos portugueses passe pelo desejo de termos um país assim ou assado ou cosido. Coisa que aliás não será necessariamente negativa. E bem se entende que muitos não gostem particularmente de ser portugueses. Quantos portugueses têm o país que eventualmente quiseram há 25 anos atrás? (...)
Mas parece que melhorámos e nas artes a internacionalização é agora prioritária fora da Europa. Mas quem não dança um samba ou um funaná, fica de fora, porque nem o ex-mundo português percebe o que falamos. (...)

Sou uma mistura de basco, francês, inglês e português, nascido em Madrid, comecei por falar castelhano, o que me interessa é conhecer os outros diferentes de mim, e sobretudo que toda a gente seja feliz, todos e cada um. E não estou a desconversar. O assunto é grave. Gostava, como toda a gente, de ser mais feliz. O trabalho dos nossos “representantes” eleitos, é trabalhar para que isso aconteça. Algum deles se lembrará? Eles sim, têm de saber o que queremos para daqui a 25 anos, não podem escapar à pergunta, porque para isso lhes pagamos. São “representantes” dos portugueses, divididos por grupos, é certo, e reduzidos a percentagens. Mas a sua competência depende de saberem responder à pergunta que aqui nos é feita. E todos terão pensado nisso? É logo aí que, para mim a porca torce o rabo. (...)
Tenho 63 anos. Já pouco importa para mim o que quero para daqui a 25 anos. O que me faz aqui estar não é com certeza dizer aos outros que quero ter um país diferente daqui a 25 anos. Se não o tive até agora, não acreditam com certeza que com 63 anos eu acredite que me vão fazer a vontade quando tiver 88. Se Deus ainda me der vida com essa idade hão-de concordar que ter um país assim ou assado ou cosido será com certeza completamente secundário. E pouco interesse terá dizer-vos que quero um serviço de saúde decente, ou melhores transportes públicos. Querê-lo-ia qualquer cidadão em qualquer país. Ou até que mais especificamente quero que aos 88 anos, se lá chegar e não estiver já privado das minhas melhores faculdades, porque casos de longevidade criativa, como o de Manoel de Oliveira vão sendo cada vez mais raros, veja finalmente reconhecido o meu trabalho e o de outros artistas, como de interesse público por um financiamento pelo Estado que me permita fazer teatro não comercial em melhores condições do que até aos 63 quis ter e não consegui.
Mas gosto de viver e quero que depois de mim a vida seja cada vez mais prezada. Só queria que daqui a 25 cada um fosse mais livre de querer do que nós somos. E tivesse mais liberdade de saber e fazer o que quer. E que todos percebessem como a sua liberdade de pensar, de escolher, de construir a sua vida, passa por um respeito pelo ser humano e por si próprio que passa por exigir conhecer como a vida e os homens podem ser diferentes disto. Passa pela construção única e pessoal de vidas diferentes para cada pessoa. 25 anos não é muito tempo. Os premiados que aqui estamos, suponho que todos já o andamos a tentar há mais tempo e ainda pouco conseguimos. Duas coisas deviam ser prioritárias para a nossa felicidade num novo conceito de liberdade que passa pelo respeito pelo outro: a total mudança do sistema de educação e a prioridade na responsabilidade pública para a chamada vida cultural de toda a gente, gastos não lucrativos, a fundo perdido, se a medida é o dinheiro, e independentes das leis do mercado. Creio felizmente que já muitos descobriram que nem vale a pena sujar as mãos e que o que importa é um regresso aos valores humanísticos capazes de voltar a conceder aos indivíduos a liberdade de ousarem ser quem querem ser, sabendo o que fazem e orgulhando-se de um novo sistema político que corresponda de facto à sua vontade.
Aos 63 já se percebe que só há uma razão: ser feliz. E que só serei feliz quando todos o formos, e que só o seremos quando estar com os outros for reconhecer o outro como outro eu, tão livre como eu teria gostado de ser. Gostaria que em 25 anos se conseguisse construir um sentido da responsabilidade individual que acredito ser indispensável para se ser feliz. Com o meu trabalho é para isso que tenho tentado contribuir. E foi a tentar que encontrei a felicidade possível. Luís Miguel Cintra. 
Pode ler a intervenção completa, o texto está disponível aqui».

sábado, 14 de dezembro de 2019

PABLO NERUDA | «Morre lentamente»







Morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

sábado, 7 de dezembro de 2019

«A demissão da ministra, a exigência do 1% do PIB para a Cultura, a impugnação dos concursos de apoio às artes e a necessidade de uma estratégia política são as grandes reivindicações da jornada de luta levada a cabo por todo o sector cultural do país na próxima terça-feira, em Lisboa e no Porto»

Recorte do Caderno principal
 do Semanário Expresso desta semana

Do que pode ser lido no trabalho do Expresso:
«A demissão da ministra, a exigência do 1% do PIB para a Cultura, a impugnação dos concursos de apoio às artes e a necessidade de uma estratégia política são as grandes reivindicações da jornada de luta levada a cabo por todo o sector cultural do país na próxima terça-feira, em Lisboa e no Porto. Artistas, músicos, atores, bailarinos, encenadores, bibliotecários, arquivistas, arqueólogos estão decididos a ir para a rua e manifestarem o seu descontentamento face àquilo a que chamam “a degradação do serviço público de cultura”. Dizem que a ausência de diálogo não pode continuar e acusam Graça Fonseca de “falta de visão” e de ser protagonista de um exercício “pouco claro e transparente”.
“Este é o momento de exigir o financiamento devido para a Cultura, agora que se está a discutir o Orçamento do Estado”, explica Alexandra Lourenço, responsável na Associação Profissional dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. “E financiamento significa recursos humanos, que são escassos em todo o lado”, afirma Régis Barbosa, do Sindicato dos Trabalhadores da Arqueologia. Pedro Penilo, do Manifesto em Defesa da Cultura, fala na “redução das equipas e dos programas. É um momento trágico de empobrecimento”, adianta, ao frisar que o orçamento da Cultura desde 2014 ultrapassa em pouco os €200 milhões. “Há menos gente, menos estruturas, menos organização, menos qualidade, o desemprego aumenta, a precariedade também e o abandono da profissão é uma realidade”, continua Penilo.
O alerta para a situação “degradante” vivida pela cultura chega numa altura em que os resultados dos Concursos Sustentados de Apoio às Artes acabaram de sair. O descontentamento é geral. “Este modelo de apoio às artes está errado, não se adapta à realidade, queremos a sua alteração. Já o dissemos através de cartas que não têm resposta, queremos dizê-lo em reuniões que não acontecem. A ministra não está a reconhecer o erro, não está a responder e nós não estamos a ver um trabalho sério. A solução passa pela nomeação de um ministro que saiba do sector. Esta ministra percebe muito pouco da matéria, queremos pelo menos um ministro que saiba do sector, com quem possamos construir um diálogo franco na procura de soluções”, diz Tânia Guerreiro, das Produções Independentes e membro da direção da Rede — Associação de Estruturas para a Dança.
 Para o biénio 2020-2021, o Ministério da Cultura atribuiu o montante de €18,7 milhões, que serviu para apoiar 102 entidades artísticas na área da criação e da programação. Mas das 198 candidaturas recebidas pela DGArtes, só 19 não obtiveram resultados positivos aos olhos dos júris. As outras 75 estruturas, que viram o júri avaliá-las positivamente, não obtiveram financiamento por falta de verba. Contra essa situação, o sector fala na necessidade de um aumento no valor de €8,5 milhões, “uma verba irrisória para o Estado”, avança Pedro Penilo. Os agentes culturais avisam que vão pedir ao Estado esse valor e pretendem chamar a atenção para “a falta de orientação e justiça” dos Concursos Sustentáveis. Ao que o Expresso apurou, a impugnação dos concursos está em cima da mesa de diversas estruturas artísticas. “Há falta de seriedade”, diz fonte próxima dos jurados. “Avalia-se de uma forma, e o resultado não é o expectável, ficam de fora projetos de alto valor artístico”, continua a mesma fonte. Este ano, pela primeira vez, os artistas amadores puderam concorrer no mesmo pé de igualdade que os profissionais e até festas e romarias foram avaliadas. Na música, por exemplo, a Orquestra de Câmara Portuguesa concorreu ao lado da Associação de Cursos Internacionais de Música de Óbidos e ambas foram apoiadas em detrimento de entidades como a DSCH ou a Orquestra da Costa Atlântica e o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, que não receberam nada.
“O 1% do PIB para a cultura significa 2,3% do OE de 2018”, avança ainda Pedro Penilo. A Plataforma Cultura em Luta, de que faz parte, sustenta que esse valor é o mínimo recomendado pela UNESCO. E afirma: “Aos 2% prometidos por António Costa na campanha eleitoral, respondemos com o mesmo 1% porque somos sérios e conhecemos os truques que o Governo tem usado para engordar o orçamento da Cultura e sabemos que o Governo sabe que são truques.”
Por seu turno, a Comissão de Profissionais das Artes já recolheu a assinatura de quase 700 profissionais e de 79 entidades culturais que pedem a demissão de Graça Fonseca. A carta vai ser entregue na residência oficial do primeiro-ministro, às 16h de terça-feira. “Uma tutela que não está interessada em saber o impacto do seu trabalho é uma tutela que não está a trabalhar bem”, diz Filipe Abreu, um dos membros da Comissão.
(...)»