Neste estado de sítio a crítica de arte foi substituída, foi contaminada pelas bulas dos departamentos de comunicação das empresas, dos coleccionadores-empresários, das fundações que garantem uma sólida relação entre o dinheiro e a arte que são a regra do sistema da arte contemporânea, que manipulam os valores de mercado com uma opacidade extraordinária, fabricando narrativas e veículos publicitários que sustentam as especulações das variações de valor que nunca se desvalorizam, em que o kitsch e a moda são dominantes. Promove-se uma transferência simbólica da perdida aura da arte, como Walter Benjamin radiografou2 para a aura fática dos objectos de luxo, do nicho de mercado em que passaram a se inscrever...».
Tudo se acelerou quando o segredo bancário foi levantado na Suíça, alguns paraísos fiscais foram escrutinados, o que torna não impossível, mas mais difícil, fazer circular o dinheiro livremente fugindo aos impostos. A aquisição de obras de arte, colocando-as em paraísos fiscais, fechando-as em cofre-fortes no Luxemburgo e Singapura, onde ficam a levedar, a utilização do mecenato para ocultar negócios tornou-se prática corrente.
É o cinismo, a hipocrisia de uma sociedade sem dignidade que infecta as artes e a cultura atirando-as para os pântanos das estéticas-mercadorias, a mais acabada alienação estética, o que torna mais urgente uma frente de luta em que as artes, a cultura e a política, sejam um bem comum, não só interpretem o mundo mas lutem para o transformar tendo por horizonte que «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas.
«O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez», como assertivamente afirmou Manuel Gusmão3».

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