quinta-feira, 7 de maio de 2026

O TITULO DO ARTIGO DE MANUEL AUGUSTO ARAÚJO NO JORNAL AVANTE! DIZ TUDO |«Arte, dinheiro, alienação estética» | ASSIM QUEIRAMOS DEBATER «À SÉRIA»...

 

 
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«(...) As obras de arte dis­so­ci­aram-se da vida, das suas con­di­ções reais de pro­dução, estão in­te­gradas e dei­xaram-se con­ta­minar pelo mer­cado que lhes re­tirou au­to­nomia e função crí­tica, su­jei­tando os ar­tistas aos cál­culos dos co­mis­sá­rios e cu­ra­dores que são os me­di­a­dores dos grandes em­pre­sá­rios que se as­sumem como co­lec­ci­o­na­dores, a tí­tulo in­di­vi­dual ou mo­tores de fun­da­ções, que no es­tado ac­tual se vão apro­pri­ando de quase tudo, ten­den­ci­al­mente de tudo o que antes era res­pon­sa­bi­li­dade so­cial do Es­tado e que fica su­jeito ao único valor re­co­nhe­cido – o lucro –, seja nas artes, na saúde, na edu­cação, no des­porto.

Neste es­tado de sítio a crí­tica de arte foi subs­ti­tuída, foi con­ta­mi­nada pelas bulas dos de­par­ta­mentos de co­mu­ni­cação das em­presas, dos co­lec­ci­o­na­dores-em­pre­sá­rios, das fun­da­ções que ga­rantem uma só­lida re­lação entre o di­nheiro e a arte que são a regra do sis­tema da arte con­tem­po­rânea, que ma­ni­pulam os va­lores de mer­cado com uma opa­ci­dade ex­tra­or­di­nária, fa­bri­cando nar­ra­tivas e veí­culos pu­bli­ci­tá­rios que sus­tentam as es­pe­cu­la­ções das va­ri­a­ções de valor que nunca se des­va­lo­rizam, em que o kitsch e a moda são do­mi­nantes. Pro­move-se uma trans­fe­rência sim­bó­lica da per­dida aura da arte, como Walter Ben­jamin ra­di­o­grafou2 para a aura fá­tica dos ob­jectos de luxo, do nicho de mer­cado em que pas­saram a se ins­crever...».

Tudo se ace­lerou quando o se­gredo ban­cário foi le­van­tado na Suíça, al­guns pa­raísos fis­cais foram es­cru­ti­nados, o que torna não im­pos­sível, mas mais di­fícil, fazer cir­cular o di­nheiro li­vre­mente fu­gindo aos im­postos. A aqui­sição de obras de arte, co­lo­cando-as em pa­raísos fis­cais, fe­chando-as em cofre-fortes no Lu­xem­burgo e Sin­ga­pura, onde ficam a le­vedar, a uti­li­zação do me­ce­nato para ocultar ne­gó­cios tornou-se prá­tica cor­rente.

É o ci­nismo, a hi­po­crisia de uma so­ci­e­dade sem dig­ni­dade que in­fecta as artes e a cul­tura ati­rando-as para os pân­tanos das es­té­ticas-mer­ca­do­rias, a mais aca­bada ali­e­nação es­té­tica, o que torna mais ur­gente uma frente de luta em que as artes, a cul­tura e a po­lí­tica, sejam um bem comum, não só in­ter­pretem o mundo mas lutem para o trans­formar tendo por ho­ri­zonte que «na “tra­dição dos opri­midos” (Walter Ben­jamin), apren­demos a não ceder aos de­sas­tres, apren­demos a tra­ba­lhar para es­toirar o tempo con­tínuo das der­rotas e a pers­crutar os mo­mentos em que algo de di­fe­rente foi pos­sível, mesmo que por umas se­manas ou meses ou dé­cadas.

«O tra­balho da es­pe­rança que magoa en­sina-nos que o que foi pos­sível, e logo der­ro­tado, será pos­sível (de outra forma), outra vez», como as­ser­ti­va­mente afirmou Ma­nuel Gusmão3».

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e não resistimos a trazer para
aqui a 1.ª página do Avante! - pela,
 a nossa ver, a magnifica imagem 
do 1.º Maio 
 

 

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