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Uma das Conversas
Abril conversas mil #3 - Moullinex e Leonor Teles
«Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me prende por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.»
Excerto da última crónica. Saiba mais.
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Duma apresentação do livro no Porto:
«(...)Num discurso em defesa do jornalismo, lembrou que a falta crescente de recursos e a delapidação “da memórias nas redações” tornam ainda mais premente o papel dos jornalistas. Em contraponto com o protagonismo avassalador dos comentadores, “um cardume sempre igual na sua gramática”. (...)».
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Em particular, reparámos naquela delapidação de memória. A nosso ver, uma doença que se estende a tantos lugares, nomeadamente a serviços da Administração Pública e, como múltiplas vezes referido no Elitário Para Todos, também aos da Cultura. Lembram-se das «reestruturações cegas»? Que falta nos faz memória organizada, neste ano em que se comemoram 50 Anos de Abril! Até podia ser Projeto a lançar pela Administração porque isso é difícil que sejam outros a fazer no âmbito de concursos (uma vez mais concursos) - e se ninguém concorresse? Até hoje a situação não foi revertida como o PS tinha prometido. Dada a exposição pública que lhe é própria, escolhemos a DGARTES como bom exemplo do que se quer dizer. Olhemos para a sua estrutura:
Longe vão os tempos em que cada «arte» tinha a sua unidade orgânica (mesmo organismo autónomo). Até pela imagem, as «atividades-meio» maiores do que as «atividades-fim»!, o que contraria todos os princípios. Nisto um dos pecados originais que não é resolvido pelo aumento de trabalhadores para aquela «central de concursos» ... Bom tema, para debate, na campanha eleitoral, e fora dela ...
Ah, é sempre aconselhável ver o que se passa noutros Países - sim, fazer o tal «benchmarking» ... E não é para fazer «copy, paste», mas para aprender ... Bom, e ir lá atrás, ao que se passou no nosso País, em especial aos períodos para os quais há balanços positivos, dos nossos melhores... Pois é, mas falta a tal MEMÓRIA ... E lembrando-nos do Movimento «OUTRA POLÍTICA PARA A CULTURA», mais esta reflexão para uma das nossas ideias estruturantes: criação de um MINISTÉRIO DA CULTURA digno desse nome.
Míseros, o título, é acompanhado de um longo esquema de subtítulos que dá conta, parcialmente, do que conta, com a intenção de identificar mais que temas — esses vão no título primeiro —, formas teatrais arcaicas, da Idade Média, e também contemporâneas, já que hoje o drama, o choro, o escândalo e o espectáculo, são condição de exercício das formas narrativas espectaculares do mundo em que submergimos — nada existe fora do seu arremesso no espaço “público” (mais privado que público) como imagem e “episódio narrativo”. As novelas do real, da política convertida a novela, associadas às telenovelas e aos sistemas publicitário e propagandístico dos imperialismos preenchem o real virtualizado que nos assoma.
O sistema das imagens do espectáculo dominante está, todo ele, ao serviço da demagogia fake que vem destruindo o que a democracia supunha ser, com as suas liberdades e os seus parlamentos — a boçalidade medíocre e a estupidificação alastraram de tal modo que não sabemos se o que aí vem, e que a mentira impôs pelo espectáculo como “verdade” não escrutinada, não será — já o é, em parte — um novo tipo de totalitarismo, resultado de um jogo entre imperialismos globalizado.
A mentira tomou o poder no coração do sistema e corrói-o.
Míseros e seus Prantos, Lamentos, Loas e Pregões, com os diabos em acção tenta escrutinar estas coisas por meios teatrais. O teatro devolve à realidade uma verdade que o sistema espectacular destrói e manipula. Leia aqui.
Dando continuidade a um vasto e intenso trabalho sobre a Obra daquele que dizem ser o fundador do Teatro português, e no seguimento da reposição de "Os Míseros – Prantos, Lamentos, Loas e Pregões", com encenação de Fernando Mora Ramos, o Teatro da Rainha propõe um colóquio dedicado a Gil Vicente. Convidámos quatro dos mais reputados especialistas portugueses na obra vicentina: Maria João Brilhante, do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; José Alberto Ferreira, docente do Departamento de Artes Cénicas da Universidade de Évora; José Augusto Cardoso Bernardes, Professor Catedrático da Faculdade de Letras; José Camões, coordenador de uma equipa de investigadores responsável pela edição das Obras de Gil Vicente em cinco volumes. Preservar e manter vigorosas as raízes da literatura portuguesa, eis o que se pretende neste arranque de Diga 33 – Poesia no Teatro para o ano de 2024.
Ao fim de tantos anos a acompanharmos o ANÚNCIO DA SUA PROGRAMAÇÃO ANUAL a EQUIPA CTA - COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA continua a espantar-nos, e é um prazer divulgar a APRESENTAÇÃO que teve lugar no passado dia 5 JAN. Para isso podíamos apenas sugerir que se olhe para aquela imagem com que iniciamos este post - e acrescentar que ao silêncio que se ouve em espetáculos, nesta ocasião o som do folhear do Programa distribuído para melhor se acompanhar o que o Diretor Artístico Rodrigo Francisco ia dizendo no Palco, mais parecendo que estávamos numa sessão de qualificação de públicos empenhados, e havia troca de opiniões com o espetador do lado, e ... - e que se visite a publicação (acima) que fixa o que poderemos ver ao longo de todo o ano que agora começa (sublinhemos, 2024 inteiro, quando outros se limitam a semestre) no TMJB. Não é impunemente que dizemos que há um NACIONAL na outra margem e que isso mesmo devia ser institucionalizado. Não para mimetizar o que existe, mas para ao seu jeito continuar, ao mesmo tempo, «antigo» e «inovador», sempre em crescendo - como se diz em gestão é o destino de quem está à frente ... Com um PROJETO ARTÍSTICO CENTRADO NO TEATRO E PARA ALÉM DELE. A comunicação social fez, e continua a fazer, a cobertura do acontecido. Mas como reportar a «alma» daquela oferta?; daquela dinâmica de públicos?; daquela capacidade organizativa? Daquele cruzamento e contaminação de artes? Difícil, o ajustado será vivenciar ... Depois disto podíamos acabar este post, mas estimulados por aquela FESTA mais estas notas:
- O que nos foi dado assistir está para lá da Programação CTA - uma Companhia de Teatro. Mas, no centro, SIM, TEATRO! Aliás, Rodrigo Francisco sublinhou quando o estava a caracterizar: onde abrangia as criações próprias; as coproduções; o acolhimento de profissionais e estruturas estrangeiras; o acolhimento de teatro nacional...E este lado, de Teatro, é o que fez, e mais fará, daquele projeto, uma CASA DO MUNDO - de Almada, Nacional, Internacional ... ÚNICA! E, naturalmente, não esquecer o FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA lá confirmado e em processo - parte grande deste universo.
- Ainda em torno do TEATRO, o trabalho com a Infância. Hoje já acontece, e certamente no futuro continuará a haver quem diga: desde pequeno/a que frequento o MUNICIPAL ( e recorremos a expressão que tanto aparece nas telenovelas brasileiras a querer-se com frequência dizer que há um conhecimento que só a arte pode gerar - e um prazer - que leva tempo a acontecer, a instalar-se). Existe de há muito, e não ficam parados - em 2024 avança-se: «regresso das “Oficinas para a infância”, e uma novidade: “Perguntas ao palco”,
sessões de filosofia com crianças». E temos o trabalho com as, (e das), Escolas que não foi esquecido, e dá ideia que, dizemos nós, com facilidade podia ser incrementado, não estivesse esta «política pública» retalhada pela Administração ...
- Depois temos as outras ARTES: e é o conjunto que faz a PROGRAMAÇÃO do Teatro Municipal Joaquim Benite. Nome de figura referencial, de ESQUERDA, dos Grupos de Teatro Independentes, (e é justo não o esquecer), já quase lenda! E não estamos a falar de «atividades paralelas ou complementares» ao Teatro. Ali estão de corpo inteiro!: em especial, música e dança. Das Unidades de Produção do Estado aos Artistas e Estruturas de «Serviço Público» e dos que vivem do «mercado». A pergunta que ocorre: em que proporção? A que decorre da tão proclamada Rede de Teatros e Cineteatros - criada sem estudos prévios? Eventualmente, em vez de ajudar até só complica o dia-a-dia ... Desde logo, para alguns, mais candidaturas, «para tão pouco dinheiro». É isso, qualquer que seja o ângulo pelo qual se olhe a intervenção estatal na cultura e nas artes, se intelectualmente honestos, desaguaremos sempre na REFUNDAÇÃO necessária...Em especial, a nosso ver, em tempo de eleições faz sentido estar sempre a lembrá-lo.
- Aqui chegados, e antes que esqueça, um sentimento que começa a assaltar-nos em demasia: faz-nos falta mais CTA, CTA ... Ou seja, mais TEATRO!, daquele que começou em Campolide. Para todos os Públicos. Clássico e contemporâneo. Do património mundial e nosso. Também na Cultura, a riqueza duma cidade e dum País está, respetivamente, na criação e produção local e nacional. Continuando abertos ao mundo ... Na valorização dos nossos CRIADORES. Expliquemo-nos (como orfãos que continuamos) não podemos deixar que outras Cornucópias desapareçam! Ou que todas se transformem, na senda de um mainstreaming que as permita viver. Sobreviver. Dito de outra forma, que COMPANHIAS, na circunstância de «Teatro, Teatro» de referência, se minimizem, o que não acontece, vai acontecendo ...
- Na apresentação, necessariamente, os 50 anos de Abril, e do muito que se poderia comentar escolhemos as EXPOSIÇÕES que vão ter lugar. Podemos ler no site da companhia:«a CTA em colaboração com o Arquivo Ephemera organizam quatro
exposições ao longo do ano que vão estar patentes na Galeria do TMJB. A
primeira, intitulada A censura ao teatro,
já pode ser apreciada, e está patente até dia 27 de Março». E por estes caminhos, como não valorizar a participação de José Pacheco Pereira? Para já, tipo bom efeito colateral, num programa que passa na televisão e na rádio - o Principio da Incerteza - o historiador faz referência à iniciativa e refere a qualidade da CTA. Talvez esta proximidade faça com que venhamos a contar com o prestigio do comentador para a preservação da MEMÓRIA (toda) não só do passado, como do presente e do futuro, nas atividades que correm ... Com escala nacional e institucional, mas continuando a valorizar-se, e muito, os projetos em que está envolvido e outros equivalentes que existem sem que tenham a visibilidade que merecem. E talvez, este nosso concidadão de que nos orgulhamos venha a refazer o que há muito escreveu no seu Abrupto .Começa assim: «Olhando para os encontros dos “artistas” que venceram a Ministra encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas “indústrias culturais”, a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da “cultura”, da “criação”, da “arte”.
Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse do público, visto que estes ramos de “cultura” e “arte” abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho pelo comum dos portugueses. (...)».
Ora bem, por aqui sempre dissemos que o setor, e em especial o Teatro, são dos mais escrutinados. Olhe-se para o universo CTA/TMJB: de maneira cristalina diz-nos onde se vão aplicar os nossos impostos que lhe chegam através do financiamento do Ministério da Cultura/DGARTES. E quem quiser pode «fiscalizar» isso - temos aí a programação. E, em especial, sempre defendemos que se devia quantificar o que os profissionais desenvolvem de forma GRATUITA. Contudo, neste século XXI, podemos/devemos ir mais longe, e seguindo as recomendações internacionais as ORGANIZAÇÕES DA CULTURA E DAS ARTES podem «dar cartas» na esfera dos RELATÓRIOS INTEGRADOS que se desenham no âmbito do DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. E não querendo ficar de fora, o Elitário Para Todos tem como propósito contribuir para isso ao longo deste ano, em linha, por exemplo, com o que tanto se tem discutido nas CONVERSAS COM O PÚBLICO no TMJB ... Ensaiar com a informação que é publica da CTA (quiçá ousar conversas com os seus responsáveis a propósito, ocupando-lhes tempo ). No limite, apresentar um MODELO DE RELATÓRIO que aproveite ao Setor da Cultura e das Artes, nomeadamente às Organizações Sem Fins Lucrativos, mas com o que as demais - com fins lucrativos - possam aprender, para utilizarmos pensamento e palavras do «Pai da Gestão» - Peter Drucker ...