quinta-feira, 29 de outubro de 2026

TEATRO DA RAINHA|«A EXPERIÊNCIA»|«Temas como a homofobia, a apropriação cultural, a turistificação, a bipolarização política, a gentrificação, a violência no namoro, a interrupção voluntária da gravidez, a toxicodependência, são ateados como acendalhas logo apagadas pela agitação de um pensamento que em nada se fixa, em nada se concentra, nada reflecte»

 



«Uma casa de campo, um jardim com jacuzzi, cinco amigos reunidos para uma experiência. Ao longo de quatro estações, os temas sucedem-se, atropelam-se, os diálogos sobrepõem-se num tratado de desconversação que deixa tudo pela rama, nada aprofunda, e o silêncio não tem lugar. Temas como a homofobia, a apropriação cultural, a turistificação, a bipolarização política, a gentrificação, a violência no namoro, a interrupção voluntária da gravidez, a toxicodependência, são ateados como acendalhas logo apagadas pela agitação de um pensamento que em nada se fixa, em nada se concentra, nada reflecte.
Se o propósito inicial era relaxarem, os cinco jovens convocados para A Experiência acabam traídos pela tensão das relações mal resolvidas. E o que se encontrava recalcado surge inesperadamente à superfície revelando um retrato geracional assaz pertinente.
Livremente inspirada em Veraneantes, de Maxim Gorky, A Experiência desenha a traço grosso um retrato panorâmico de uma geração encalhada entre a superficialidade das relações e a intimidade subjectiva, fazendo uso de uma linguagem simples, directa, crua, desempoeirada, informal, sustentada por diálogos deliberadamente caóticos.
Escrita no âmbito do programa Writing on New Realities, uma parceria entre A Turma e a Galata Perform, de Istambul, A Experiência chega agora ao palco depois de um primeiro encontro com o público em 2024, através de uma leitura encenada em Istambul. A passagem do texto para cena sucede numa nova etapa do seu percurso, desta feita através de uma cocriação entre A Turma e o Teatro da Rainha».Saiba Mais.

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Uma Companhia fora de Lisboa, mas aqui tão perto da Capital  - nas CALDAS DA RAINHA - com a nosso ver trabalho de excelência. Em termos Institucionais há que encontrar ESTATUTO que o reflita - não tratar de forma igual o que é diferente, distinguir o que nos devia orgulhar no âmbito de SERVIÇO PÚBLICO DO TEATRO. Aqui, no ELITÁRIO PARA TODOS, há quem se lembre do tempo do saudoso Paulo Cunha e Silva que ia nessa direção e disso foi dado conhecimento público. Em busca de uma verdadeira REDE DE TEATRO - havia realidades  identificadas para lançar. Se bem se lembra BRAGA; AVEIRO; CALDAS DA RAINHA; ALMADA ... A ideia, mais do que «apoiar», «garantir»... Por TEMPO LONGO ...Não, não tinha nada a ver com a atual Rede de Teatros e Cineteatros que burocraticamente se cruza com a multiplicidade de Programas de Apoio, cada vez com menos identidade e onde nos perdemos ...   
 O que será feito desse trabalho?    
 
Aproveitemos para voltar a lembrar isto:
 
Política, neutralidade e espírito
«O chavão não tem força conceptual, vive da repetição, é reactivo, tique mental que afirma um já pensado que não chegou a ser pensamento. O chavão cavalga a onda, surfa no fluxo do ruído e circula entre os detritos do lixo comunicativo com o peso da coisa arrumada lançando névoas de vulgaridade sobre a clareza do potencialmente entendível. Quando se diz que uma política cultural é uma política do espírito confunde-se expressamente o que será uma política com o que foi um adestramento do povo e tenta-se tirar disso um efeito definitivo, um ponto final no assunto, contaminando-se de propósito instrumental fascizante o que seja “uma política”, qualquer seja ela. A política do espírito foi ideológica, orientada para a conformação do povo à pobreza, viveu da multiplicidade convergente da acção de organismos do Estado – educação, interior, propaganda, turismo, eventos, como agora - e forçava o consenso empolando valores nacionais – culturais – supostamente únicos: passado glorioso além-mar, fé ocidental mata-mouros e virtudes rurais de odor primaveril, tudo embrulhado numa aura de felicidade campónia em que a povo era décor, alegre no trabalho, inocência nos rostos mais pose espontânea ordenada, muitas ceifeiras e nenhuma Catarina, claro.
A política do espírito consistiu em formas eficazes de mistificar o real. Foram formas políticas de propaganda ligadas ao restaurar da “alma portuguesa” de rastos com as políticas liberais, no dizer dos “restauradores”. Já uma política cultural, em democracia, é estruturar condições livres – democráticas – de criar, de fazer cultura, isto é, não só de produzir cultura e arte de modo livre pelos que são profissionais e criadores, apoiados pelo Estado de modo legitimado constitucionalmente mas não tutelado paternalmente, mas também de fazer o contrário do que tenha sido orientar o espírito para uma concepção única, a passividade adestrada pelo consenso corporativo, passividade “espontaneamente agradecida” como gostariam os governantes que se verificasse com a política de espírito agora dominante, a “austeridade”, este voto renovado na pobreza como futura libertação que se vende em todos os horário e bancas – é curioso que esta via da austeridade vem directamente do espírito salazarento das virtudes da pobreza, excelsas e únicas, mexilhão aplaudindo a onda do mando com fé.
Uma política do espírito é sim a vulgata da austeridade como uma inevitabilidade, a ideia do poupar e do menos gastar, do pagar ao rico o que não deves com o que não tens, depois de infinitas estatísticas de conveniência financeira te acusarem e culparem – que legitimidade têm estas taxas de juro obscenas, o saque da qualidade de vida de um povo pela destruição dos serviços públicos? E de onde lhes vem, aos credores, a acumulação financeira que possuem e usam como arma de guerra exercendo uma chantagem constante e antidemocrática? De algum lado virá, será virtuoso? Somos todos culpados de viver acima das posses? Mas que posses e quem? O exercício cidadão da vontade popular democrática será específico da crise, puro sofrimento e nada relacionado com os valores fundacionais da modernidade? Igualdade, fraternidade, solidariedade, condições de acesso idênticas à educação, à saúde e aos bens culturais e artísticos? Nada disto diz nada?
Se pouparmos, se aceitarmos os cortes, se formos consensuais, se aceitarmos o horizonte de pobrezinhos, seremos compensados num além que fará crescer a economia – dela nem se fala a sério - mas que não se sabe onde vive e que não se divisa mais qualificado que um mítico purgatório de classe menos que média baixa, pobreza envergonhada e desemprego duradouro, já que o paraíso só mesmo para quem frequenta hotéis de cinco, seis e novidade do último marketing turístico, sete estrelas: às portas do céu golfes e saunas te esperam quando, depois de empobreceres enriqueceres num amanhã que canta num Eldorado de acesso publicitário.
Quando se diz política cultural também se diz política económica e nisso não há catequese alguma, nem nenhum pecado verbal original. E dizer política significa nobilitar o estatuto daquilo que é, ou possa vir a ser, um programa. Então o que será uma política? É justamente a inscrição de um desígnio de acção íntegro – inteiro, completo ou tendente a -, de uma direcção para concretizar medidas articuladas num programa face a uma realidade que delas necessita. Um ordenamento, um plano director, uma coerência integrada de medidas, são formas de política. Já a não política, a neutralidade hipócrita, só pode fingir-se, e assume pela inacção ou ausência, entregar à selva as coisas do real para que o predador mor as ordene pela força do seu poder selvagem e não democrático – a lei da selva não tem sujeito ético e pelos vistos a lei legislada e a não aplicada também não.
É essa violência que o novo tirano dos povos, os respeitáveis credores, os mercados especulativos, têm concretizado como tragédia em marcha – na Grécia há jovens alunos a desmaiar em escolas por terem fome. A ordem da selva é a lei do mais forte e uma política é justamente o combate pelo direito de todos contra a imposição da lei do mais forte. Enfim, será necessário salvar a política dos políticos? Ou a fome será mesmo uma das formas de aceder ao tal progresso e à tal modernidade?»
Fernando Mora Ramos/Encenador na província
 
Em especial,  recomenda-se
 a quem vai discutir o ORÇAMENTO DO ESTADO na especialidade ... É isso, há que olhar com GRANDEZA. A CULTURA NÃO É UM LUXO ...
de lá, com a chancela
 da Pastoral da Cultura:
 
«Vende um dos teus pães/
 e compra 
um lírio: A cultura não
 é um luxo»


 

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