sábado, 7 de agosto de 2021

«Integrado Marginal»

 

SINOPSE

Notívago, boémio, brigão. Receoso de que a imagem pública lhe ensombrasse os méritos literários. Crítico do marialvismo. Acusado de ser marialva. Bem relacionado. Obcecado com a própria independência. O maior escritor da segunda metade do século XX. Um escritor datado e sem a mesma projeção internacional de um Lobo Antunes ou de um Saramago. Um espírito insubmisso. Um casamento duradouro. A convicção e a crença no próprio trabalho. Momentos de dúvida e angústia. Neste livro, vive um homem cuja personaldade foi formada no antagonismo. E um espírito que, apesar de amarrado a diversos ódios (ao campo, ao regime, à pequena burguesia da qual era originário, à literatura sentimental e demagógica, à polícia, à Igreja), nunca desistiu de Portugal e de ser escritor.
Da influência inicial da literatura anglo-saxónica, passando pela necessidade de encontrar uma "sintaxe citadina", ou pela importância de incorporar a experiência na criação literária sem cair no sentimentalismo ou no confessionalismo, até ao salazarismo enquanto quadro de mentalidades contra o qual toda a obra de Cardoso Pires se desenvolve, esta biografia dá a conhecer o processo de construção de um escritor.
Pela mão do destacado escritor Bruno Vieira Amaral, o leitor conhece a exigência obsessiva e quase doentia, a lentidão no processo de escrita e publicação e como isso entrava em contradição com a aspiração ao profissionalismo e com a insistência na dignificação do ofício de escritor que toda a vida José Cardoso Pires, o integrado marginal, defendeu
. Saiba mais.

 

 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

OS 100 ANOS DE CARLOS OLIVEIRA NO JL

 

 


E do que escreve Nuno Júdice e disponível online: «Carlos de Oliveira, a exigência da escrita». Excerto:

«Em 1944, um ano depois de Casa na duna, publica Carlos de Oliveira (CO) o seu segundo romance, Alcateia, que terá sido apreendido, seguindo-se uma 2ª edição em 1945. No cólofon desta edição se anuncia um novo romance, Os dias e as noites. Nunca saiu um livro com este título, mas talvez o autor o tivesse substituído por um outro mais forte: Pequenos burgueses, saído em 1948, ao qual se seguiria Uma abelha na chuva, de 1953.

Em cerca de dez anos, esta produção literária não se pode considerar abundante, se pensarmos em autores da mesma geração neorrealista como Alves Redol ou Fernando Namora. Aquilo que distingue a obra de CO é o seu sucesso, relativo à nossa escala, como é óbvio, que leva a sucessivas reedições dos seus livros desde esses anos 50 até à sua morte, em 1981, ainda se prolongando sobretudo devido ao facto de Uma abelha na chuva figurar nos programas escolares, sem falar da sua poesia, objeto de sucessivas depurações desde os primeiros livros marcadamente neorrealistas, que ganhou uma dimensão que o colocou entre os nomes de referência da segunda metade do século XX.

 Poderá perguntar-se a que se deve a escassez dessa obra romanesca, que só seria quebrada com a publicação de Finisterra: paisagem e povoamento, em 1978, o que deixa uma pausa de 25 anos desde Uma abelha na chuva. Uma explicação será o questionamento dessa estética neorrealista a que CO ficou associado (justamente, diga-se), mas de cujo peso se procurava libertar. E essa libertação foi a causa desse silêncio, levando-o por um lado a procurar uma nova linguagem, que encontraria com esse novo e final romance de 1978, publicado três anos da sua morte precoce, e também a um trabalho de reescrita, mais ou menos permanente, dos livros anteriores: se compararmos as primeiras edições com as últimas, sobretudo nos casos de Casa na duna e de Uma abelha na chuva, temos praticamente outras obras, resultado dessas mais que emendas, reelaborações.

 Um exemplo mínimo: se compararmos a 1ª edição de 1953 com a de 1963, em dez anos o romance termina de modo bem diverso, não quanto ao que é dito, mas no modo como é dito. Assim, em 1953, lemos no final o destino da abelha:

“A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo: os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.”

Dez anos depois, lemos na 3ª edição: 

“A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo: os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a ferirem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra e a chuva espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.” (...)». Continue a ler.

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E lembramos, ao acaso, «Pequenos Burgueses» - (mas aquelas figuras não continuam por aí?).  A edição que por aqui se possui é a da imagem abaixo, mas há mais recentes - veja aqui.

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 Do site da FNAC:

«Pequenos Burgueses» foi publicado pela primeira vez na Coimbra Editora, em 1948. O texto definitivo, que aqui se reproduz, é o da 7ª edição, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1981, tendo sido corrigidos alguns lapsos. Em "Pequenos Burgueses" apercebemo-nos de uma complexa teia de relações amorosas e familiares, em torno da qual outros acontecimentos, sempre descritos com humor e sarcasmo, curiosos e hilariantes, se desenrolam.Somos absorvidos pelas manias, traumas e psicoses destas personagens, bem como pelo seu modo de vida em que muitas vezes estão implícitas a duplicidade e clandestinidade.Satírica comédia de costumes, "Pequenos Burgueses" põe a descoberto as artimanhas e esquemas de uma classe que vive para as aparências, mas que se acaba por revelar triste e mesquinha....». 

 

 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

QUEM CONHECE OS EEA GRANTS? | pode ser que agora o assunto mereça mais atenção nomeadamente na esfera da cultura e em particular das artes ...

 

 

Recorte do jornal Público de 2 AGO 2021


Leia no jornal Observador online

É verdade, nos últimos dias apercebemo-nos que os EEA Grants tinham merecido a atenção da comunicação social como se pode ver pelas imagens acima. Mais alguns elementos, o trabalho do Público começa assim: «Na edição 2014-2021, Portugal beneficia de uma alocação global de 102,7 milhões de euros no âmbito dos EEA Grants para cinco áreas programáticas: Crescimento Azul, Ambiente, Conciliação e Igualdade de Género, Cultura, Cidadãos Ativ@s. Os EEA Grants (de European Economic Area) são o Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (MFEEE), disponibilizado a fundo perdido, através do qual a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein apoiam os Estados-membros da União Europeia com maiores desvios da média europeia do PIB per capita. (...)». Mais adiante podemos ler:Associação Portuguesa de Aquacultores (APA), que agrega dezenas de empresas ligadas à produção de peixe em aquicultura no país e cujos associados se localizam sobretudo na região do estuário do Sado, Aveiro e Algarve, quase desconhece os EEA Grants. (...) Noutro momento está lá escrito: O ex-CEO da Portugal Ventures desconhece os problemas associa- dos à baixa execução dos EEA Grants. Uma coisa é certa: “Tendo eu estado estes anos todos ligado ao empreendedorismo, constato que isto nunca foi comunicado, ninguém sabe de nada, é um não-assunto. Não está no pipeline do empreendedorismo. Porquê, não sei. Nunca vi a Startup Portugal, o IAPMEI ou as incubadoras divulgarem isso. Creio que é algo gerido apenas na esfera das direcções e secretarias-gerais,que não têm ligação próxima com o ecossistema empreendedor”. (...)».

No que diz respeito à Cultura, pelo que acima mostramos, não ficamos a saber muito, e a nossa ideia é que o setor também terá défices de informação. E no Elitário Para Todos também já não havia grande «memória». Assim, fomos à cata ... Facilmente encontrámos  post que lhe dedicamos ( outros haverá) que tem a ver com a coisa (embora não pareça): 

DA VIDA DOS OUTROS | NORUEGA | «The Cultural Schoolbag (TCS)»

A seguir uma visita  ao site dos EEA grants:


 
E destaquemos:
 
 
 Depois, no site da DGARTES:


 
De lá:  «A DGARTES notificou, na passada sexta-feira (dia 2 de julho), com os resultados do concurso, os candidatos de Connecting Dots – Mobilidade Artística e Desenvolvimento de Públicos. A lista das entidades apoiadas será divulgada publicamente numa segunda fase, prevista para breve, em cumprimento do regulamento aplicável. (...)». E ficamos por aqui,  eventualmente a «segunda fase» já aconteceu e nós é que não encontramos ... Mas ninguém merece tamanho esforço para conhecer  o que devia ser possível de forma intuitiva e cristalina. Mas indo ao fundo da questão: de que maneira o EEA GRANTS se «mistura» com o que acontece de iniciativa e financiamento nacional? Ou seja, como é que o Programa EEA grants, de facto, está imbuído no desenvolvimento da cultura e das artes do País. Bem se sabe que o SETOR anda a lutar pela sobrevivência e não tem tempo para ir «a tudo», mas, a nosso ver, em especial,  o EEA Grants com esta designação «esquisita» - Programa Cultura / Connecting Dots  - lá que merecia mais atenção, merecia ... Não pode ser deixado para quem se especializou (e nada contra, cada um luta com as armas que tem) nestes programas e processos ... Naturalmente, havemos de voltar a isto. Ainda é «um bom dinheirinho» que está em causa, embora a questão esteja para além disso. Obviamente.
 
  
 
 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Mais sobre Olga Prats: uma cidadã empenhada

No Elitário Para Todos há quem se tenha lembrado do LP abaixo que mostra coisas várias: o trabalho «de sempre» entre Lopes-Graça e Olga Prats; o que  a pianista já era em 1973; o que se podia aprender no invólucro de um disco; ... E agora, felizmente,  temos  o MIC que nos trata de «memória» que identifica ..., e onde podemos continuar a aprender.


 

 

excerto do texto de Mário Vieira de Carvalho

 

domingo, 1 de agosto de 2021

ÉRIC ROHMER | no cinema Nimas em Lisboa

 

 

Veja a programação aqui

 

Para quem possa estar hesitante em (re)ver   Éric Rohmer no cinema Nimas em Lisboa, o que  o critico Jorge Leitáo Ramos escreveu  - na revista «E» no Expresso da semana passada - é capaz de ajudar a decidir: 

 
«No princípio era Haydée Politoff em “A Colecionadora”, de biquíni, a passear na praia, os pés na água, os pés em grande plano, depois. Logo a seguir, o olhar torna-se perscrutador, aproxima-se, detém-se nas coxas, nas espáduas, na zona púbica e faz varrimentos verticais e não é como quem descreve, é como quem aprecia, cobiça ou antecipa. E logo ali se mostra que o homem que escrevera “L’Organisation de l'Espace dans le Faust de Murnau” (um dos mais admiráveis e minuciosos livros sobre cinema que conheço) cuidava, no seu trabalho de cineasta, da mise-en-scène, da arte de organizar o ‘quadro’, as geometrias, os equilíbrios, os cromatismos, algo em que Éric Rohmer é um mestre. Mesmo nos seus filmes que parecem feitos em clima de improviso, como os da série “Comédias e Provérbios”, mesmo quando simulam ser à vol d’oiseau, há um rigor espantoso, de tal modo que quase se pode fazer, para os seus filmes, fotograma a fotograma, cena a cena, uma análise similar à que Barthes exemplificou para a literatura no seu “S/Z”.

 No princípio era Jean-Louis Trintignant e Françoise Fabian num aconchego longo (“A Minha Noite em Casa de Maud”) e falam, falam, falam, de Pascal e do cristianismo, de mulheres e de moral, de jansenismo e de desprezo, de fidelidade e de amor-próprio. Ela está na cama, ele não, mas foi ficando — e falam. Falam e é um dos mais extraordinários atos de sedução intelectual entre um homem e uma mulher que o cinema alguma vez materializou. No princípio era o corpo e era o verbo. E, claro, o tempo. O tempo, no cinema de Éric Rohmer, em sentido meteorológico, é essencial, é uma das matrizes onde se instalam a psicologia dos personagens, os seus estados de alma, a sua transitória natureza.

Da neve fria e dos dias brumosos de “A Minha Noite em Casa de Maud” (que acaba, em desgosto, num dia de verão) à solaridade estival, a convidar ao despojamento, à lassidão, ao sexo descomprometido, de “A Colecionadora”, poucos cineastas captaram o tempo de uma forma tão vívida e tão significante. A chuvada veraniça em “O Joelho de Claire” é um casulo propício à intimidade e a uma certa vilania. Para um homem que achava que no cinema não cabem metáforas literárias, a meteorologia foi um dos recursos mais inteligentemente subtis a que recorreu ao longo de uma obra extensa e frutífera. E, já agora, divinamente perversa, as mais das vezes em tom de comédia branda, no seu gosto pelos jogos de sedução em que os homens são sempre mais irrisórios que as mulheres e onde os resultados são usualmente inferiores às expectativas e aos desejos dos comparsas.

Chamemos à conversa “O Amor às Três da Tarde” e a desorientação de um jovem advogado, bem na vida, bem casado e bem parecido, face ao mecanismo de fascinação com que Zouzou o rodeia — e que acaba com o protagonista conformado à rotina que o filme mostra com um pingo de tristeza, mas sem sombra de veredicto. Dir-se-ia ser a ausência de julgamento outra das regras básicas de um criador cinematográfico que duradouramente olhou pessoas e sentimentos, pessoas de que gostava sem ser obrigado a com elas concordar. Pessoas de que se ocupou em mais de 50 anos de filmes. (...)».